Archive for julho, 2012

Não sei com qual das mãos meu querido amigo Dr. Bezerra manuseava o bisturi, se usava luvas de borracha – de boxe é que não era -, mas o certo é que me senti tomando um ‘cruzado de direita’ ao ler hoje uma de suas recomendações: “Eles – os meus irmãos – o enxergam mais do que a nós [desencarnados], eles o escutam mais do que imagina, e eles se converterão aos seus testemunhos de amor e abnegação muito mais do que pela eloqüência das suas palavras”.

Desejava o doutor com essa expressão, me falar de vestígios – pegadas, sinais, testemunhos. Vestígios de que natureza eu tenho espalhado por aí ao longo de minha oportunidade reencarnatória? Serão minhas pegadas semelhantes às do Cristo, prático, oportuno, serviçal, abnegado, ou somente alguns teóricos sinais?

Não posso, de forma nenhuma, com a eloqüência de minhas palavras, negar aos meus irmãos que existe, sim, uma Hierarquia Espiritual amorosa e que a ela eles deverão se dirigir… Mas o que esses queridos necessitados desejarão ver de pronto, de encarnado para encarnado, será a minha abnegação…

Se com minhas palavras eu lhes ensinar que há uma luz no final do túnel eles desejarão que os tome pela mão e lhes mostre a entrada desse túnel que sequer conseguem identificar.

Em determinadas situações desejarão mais o toque de minhas mãos do que o verbo de meus lábios.

Talvez depois que estiverem com suas necessidades básicas materiais satisfeitas, possam assimilar as verdades que eu lhes falar sobre o Evangelho e de um Jesus Cristo que não é uma lenda.

Todas as minhas ações concretas em suas direções, não serão nenhum favor a eles, mas a mim mesmo, na forma de santo ‘pagamento’ pelas pregressas vezes que os lesei.

Pergunto-me, onde estão esses necessitados para com os quais tenho tantas dívidas, e o eco de minha consciência – meu semáforo regulador – me retumbará que não precisarei fazer muito esforço para enxergá-los, pois eles estarão batendo no meu portão, tocando minha campainha, entrando pelas ondas de meu celular, pelo fio de meu residencial, pela conexão de minha internet… Quem sabe passando trôpegos pela frente de minha casa onde estarei acomodado, cultuando meus vícios…

Minha consciência, então, gritará a meus ouvidos moucos para eu levantar de minha espreguiçadeira, largar de meu chimarrão ou, quem sabe, até de meu Evangelho ou da teórica leitura que me atrai…

Estarão todos, quem sabe, enfileirados na minha porta, como os desgraçados do SUS, mendigando favores sobre os quais possuem amplos direitos.

Seus rostos contraídos gritarão em silêncio me pedindo que me levante das olimpíadas, do futebol, do carnaval, da copa, do Facebook, pois todos estarão com a ficha um de suas necessidades à mão.

E quando chegar a minha ‘hora’… talvez muitos deles estejam ‘lá’ e tais quais mediadores revelem ao Divino Porteiro da Porta Estreita que eu os atendi não com o Evangelho nas mãos, mas com as mangas arregaçadas e com as mãos servidas…

Quantas páginas precisarei ainda escrever com meus exemplos a fim de que substituam todas as teóricas que preenchi com lápis, caneta, Word?…

Se Jesus é a videira e eu apenas um de seus ramos, será necessário que eu vingue, brote, floresça, frutifique e ainda forneça minha sombra aos cansados de jornadas áridas.

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Abra o seu coração, pg. 128 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

Assiduidade nos estudos, o requisito exigido na maioria das Sociedades Espíritas para que o associado se engaje aos trabalhos da casa. Na confraternização do final de 2009, meu primeiro ano de estudo, confessaria às minhas duas coordenadoras que aquela atividade – o estudo – havia me encantado, durante aquele ano…

No ano seguinte, tudo se modificaria. Além do estudo, ingressei nos trabalhos na Casa e quando só estudava – ou só  ‘recebia’ -, ficava na ‘maciota’; quando comecei o trabalho, este pressupôs grupo e todo o grupo – familiar, profissional, comunitário… – subentende coletividade e esta… dificuldades!

Qualquer engajamento em grupo qualquer que seja sempre me exporá; a sociedade é uma exposição permanente; é nela porém, que saio da teoria para a prática, caso contrário, corro o risco de ficar muito perto do tesouro, mas distante das jóias:

  • O aviador recolhido ao hangar, o soldado longe dos campos de treinamento, o marinheiro que enjoe no mar… serão militares medíocres, ou estarão perto do tesouro, porém distantes das jóias;
  • Enunciados sobre o bem, estudos e frases bonitas sobre a caridade sem o seu exercitamento, me deixarão muito perto do tesouro, porém afastado das jóias;
  • Se em meu trânsito por aqui tiver dominado todas as obras básicas, devorado pilhas de livros, porém sem um engajamento, pode ser que chegue ao meu Destino de mãos vazias, pois… estive muito perto do tesouro e não me apossei das jóias;
  • Adoro rabiscar, sublinhar e ‘iluminar’ meus livros, tanto que não me permito tomá-los emprestados. De que me adianta, porém o amontoado de traçados no Evangelho inteiro ou na pilha de livros se esses teóricos artifícios não vierem a me modificar? Não estaria eu pertinho do tesouro sem me apossar das jóias?

Cristãos de grande magnitude souberam com galhardia chegar pertinho dos tesouros e se apossar de suas jóias preferidas: Cristo não só se apossou dos doentes ‘de tudo’, mas os priorizava; Maria, a ‘própria’ jóia de Nazaré, fez da humildade e do anonimato instrumentos para acompanhar a obra do Filho; Ghandi se apossou das jóias da paz; Madre Tereza e São João Bosco encontravam sua jóia em cada pequenino que abrigavam; Kardec e Chico fizeram do intelectual e do moral suas jóias preferidas; e Dr. Bezerra, o Médico dos Pobres, fez de cada necessitado o seu brilhante preferido. Todos eles, muito perto do tesouro, não desperdiçaram a chance de se apossar da jóia preferida.

Todas as facilidades do estudo e de suas teóricas exortações – o tesouro -, transformar-se-ão nas dificuldades do convívio prático em qualquer grupo – as jóias.

‘Hay’ que se aproximar do tesouro e ‘também’ se apossar das jóias!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Espiritismo sentido, pg. 126 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

Por anos, séculos, nesta ou em outras vidas, a humanidade sentiu medo de Deus ao infringir o decálogo – os dez mandamentos… ‘Representantes’ divinos agiam como mediadores entre o Pai e as ovelhas para mantê-las dóceis no aprisco; reportavam-se a um Pai severo que punia seus filhos, por ocasião de suas ‘infrações’. Instituído estava o cabresto religioso!

Dores físicas ou morais, das quais nunca estarei livre enquanto num Planeta de provas e expiações, não são nenhum castigo de meu Pai, mas uma luz amarela que se acende no semáforo de minha consciência a me indicar que logo, logo, o vermelho se fará se minha incúria me conduzir ao desamor.

Avançar no amarelo seria como eu optar pela estrada larga que jamais me conduzirá à porta estreita ou à paciente espera pelo sinal verde que me permitirá avançar na direção da disciplina, do bem, do amor, da benevolência; a partir daí a autonomia de meu tráfego…

O semáforo de minha consciência estará sempre me estabelecendo os limites para uma boa convivência no trânsito da vida.

Independente de suas cores, os sinais não são ruins… São apenas necessários. Meu Pai não me ‘castigará’ quando de minhas infrações; tão somente amorosa e justamente me apresentará a conta proveniente dos efeitos de causas equivocadas. Os sinais que se apresentarão, então em meu semáforo, me darão o tempo certo para disciplinar o meu tráfego nas pistas do Mundo.

Nenhuma dor terá o poder de permanecer ‘in aeternum’ – para sempre – em mim. Muito pelo contrário, caberá a eu entender que logo após o amarelo e estagiando pouco ou muito no vermelho virá o verde de minha liberdade… Liberto da dor, de conflitos, do desamor!…

Perceber os sinais do amarelo, exercitar no vermelho usufruindo do aprendizado das dores para logo após libertar-me e pilotar no verde, além de natural é a arte de dirigir a minha vida…

A coisa mais certa: A dor permanecerá comigo até eu prescindir de sua necessidade, ou que ela produza os efeitos de que precisar… “Toda dor demanda tempo para se equacionada, geralmente o tempo necessário à nossa transformação”.

Há muito que realizar em meu mundo interior em favor de minha saúde, só não o faço, muitas vezes, porque estou preocupado demais com as ações dos outros – para ser mais honesto, com suas vidas… Então permaneço doente!

Se eu “harmonizasse meus sentimentos, equilibrasse o raciocínio, enxergasse sem maldade [e] ouvisse sem distorções”, e ainda, seguindo os conselhos de Santo Agostinho, “interrogasse a minha consciência, ao fim de cada dia, sobre o bem e o mal praticado”, me propiciaria permanecer menos tempo nos sinais amarelo e vermelho, teria mais saúde e galgaria mais rápido o verde da liberdade!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Autoconhecimento, pg. 124 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

Estopim: Segundo ‘Don Aurélio’, ‘elemento deflagrador de uma série de acontecimentos’.

Não tive o merecimento, em minha curta permanência familiar de ser apresentado a Deus, a Jesus e à Sua Mãe; num colégio religioso, entretanto, por abnegado ‘pai postiço’, tive a felicidade de conhecer essa hierarquia de amor da qual nunca larguei a mão. Mudou a doutrina, mas não a confiança.

Na mão inversa, se a desventura familiar e religiosa me abraçou no lar, na escola ela me sorriu religiosa, moral e intelectualmente.

Em épocas mais remotas, a educação no lar era mais disciplinar e menos amorosa. Atualmente, a disciplina doméstica caiu bastante e há um pseudo-amor com o verniz de licenciosidades…

Com a disciplina aliada ao verdadeiro amor de pais para filhos e vice-versa, haveria a melhor das adições e a família voltaria a ser a célula da moralidade.

Com a família como estopim para formar mulheres e homens de bem nossa sociedade planetária já estaria – e com ela o Planeta junto – galgando a promoção a um mundo mais feliz. Encarregar-se-ia, dessa forma a família, de acionar a carga maior, a sociedade!

Infantes aprenderiam nas escolas do mundo, ciências, linguagem, matemática… mas somente no recanto do lar, preferencialmente no colo de mãe ou pela mão e ombros amorosos do pai dominariam: As ciências da alma, a linguagem do amor e solucionariam a aquela equaçãozinha Crística do perdão, a dos 70 vezes 7…

Não será, portanto na escola, mas no calor do lar que as crianças aprenderão as mais belas lições do amor “aformoseando-as aos princípios da ética e do amor”.

Se na primeira os pequenos irão receber um cabedal de conhecimentos técnicos, no segundo suas almas serão inundadas da informação moral e religiosa que necessitarão para um futuro bem próximo.

Espíritos velhos, portadores de um passado de luzes e sombras, as crianças necessitarão da iluminação de pais, irmãos e dos demais membros da família que ora os abriga.

O Pai é sempre caprichoso em sua obra; não desejando seus filhos órfãos, na hora certa, seja na família ou utilizando Sua ‘tecla de atalhos’ os iniciará nos misteres da religiosidade!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. A importante tarefa dos pais, pg. 99 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

O acadêmico de medicina não passa os seus seis anos de curso e mais os dois da residência médica debruçado e mergulhado nas teorias de seus grossos volumes… Haverá a hora certa em que porá a mão no bisturi e realizará as primeiras suturas.

Soldados, policiais, bombeiros se não saírem da sala de instrução e se lançarem à maneabilidade, ao rastejo, ao exercício de tiro real, a controle de distúrbios, aos simulados de incêndios… serão apenas militares teóricos.

 “Que cada um se conscientize que está numa excursão de aprendizado espiritual, passando por estágios práticos das lições que já conhecemos intelectualmente”, me diria Dr. Bezerra de Menezes.

Num passado, ainda no plano espiritual, por ocasião de meu acordo reencarnatório, manifestei a meu Divino Governador desejar reencarnar numa família onde reencontrasse pessoas de minha estima…

…Ele, mais sábio – muitíssimo mais! – do que eu, satisfez meu desejo, porém me disse que nessa família, além de parentes afetuosos, haveriam outros ‘nem tanto’ aos quais eu deveria ‘aprender’ a amar; e de modo prático!

Todas as lições teóricas, portanto, que ao longo dos milênios meu Espírito aprendeu a respeito do bem e do amor, eu precisaria, no “estágio prático” de minhas reencarnações, exercitá-las exaustiva e intensamente.

Como eu amaria, em meu “estágio prático” somente aqueles que me amassem? Precisaria, também, dar o meu amor aqueles que mo negassem.

Como o médico, o bombeiro, o soldado, o policial… precisarei me exercitar; estagiar praticamente na profissão do amor, pois a teoria… Essa, do amontoado de livros, eu já tinha toda!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Vivenciar o amor, pg. 97 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

Profilaxia é a área da medicina que trabalha com a prevenção. Ou as atitudes tomadas quando a população ainda não está doente: Preservativos, saneamento, escovação dentária, destino à coleta do lixo, vacinas e outras medidas, todas são profiláticas ou preventivas.

Vacino-me desde os 50 anos contra os diversos vírus da gripe ‘para’ não contrair gripe. Seria eu imprudente se procurasse a vacina quando já estivesse doente.

Aliviar o lixo das bocas de lobo para que se faça o escoamento pluvial, retirar as folhas caídas na calha para que a chuva não tome conta de minha casa, selecionar e dar o adequado destino aos diversos resíduos são medidas preventivas básicas que fazem parte de minha quota de contribuição.

Da mesma forma, não devo me lembrar de Jesus como sendo somente uma lenda, ou só um herói a mais, ou um quadro em minha parede, ou um mártir do ano 33 d.C. É Alguém que me deixou roteiros seguros para eu não viesse a enfraquecer a minha saúde moral.

Se eu disser que Suas atitudes e todo o acervo que me deixou como legado registrado influi na minha maneira de ser, aí sim, estarei começando a trabalhar com medidas profiláticas para minha alma.

O esforço na direção do bem não deverá ser realizando ‘quando’ eu já estiver doente espiritualmente, mas justamente para eu não adoecer.

Mas onde estaria Jesus para que eu me aproximasse dele? No primeiro pequenino e necessitado que aparecer à minha frente! Sensibilizando-me e atendendo-o, a minha profilaxia começa a se realizar.

Analisando o problema de meu semelhante e percebendo-o infinitamente superior ao meu, já poderei começar a melhorar de meu insignificante mal.

Ao visitar uma família pobre onde há uma porção de pequerruchos desprovidos de tudo, mas que gostam de uma conversa, de um abraço e ‘também’ de uma guloseima, estarei aplicando em mim medidas profiláticas para que eu não venha a adoecer espiritualmente.

Que Jesus não seja para mim somente imagens como a do que nasceu em Belém, ou a do sentenciado do Gólgota ou o da manifestação resplandecente do Pêssach – Páscoa -, mas aquele que ficou através de sua mensagem e de suas profiláticas exortações e admoestações…

…Estas sim serão a melhor profilaxia não só para eu não adoecer como para eu continuar com a saúde perfeita.

Jesus “não quer que apenas o invoquemos quando estivermos enfrentando um grave problema. O Mestre desejaria estar antes conosco para que o grave problema fosse evitado”.

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. O desejo de Jesus, pg. 93 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

“… Detiveram certo Simão de Cirene, que voltava do campo e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus”… (Lucas, XXIII, 26).

Simão, oriundo de Cirene, região do norte da África – atual Líbia -, vivia numa importante comunidade judaica e é muito provável que por ali passasse em direção a Jerusalém para a celebração do ‘Pêssach’ (Páscoa). Dessa forma, Simão se configura como sendo a imagem do socorro, da ajuda, amparo, auxílio…

Autorizada que foi minha reencarnação neste Planeta de Provas e Expiações, o Divino Pai jamais me deixará entregue à orfandade; ou, sempre estarei, desde que assim o deseje, confiado a uma hierarquia socorrista envolvendo desencarnados e encarnados…

Há que se considerar, porém, não desacreditando do auxílio Espiritual, que o primeiro adjutório sempre me advirá de camaradas meus encarnados – parentes ou amigos – e de objetos ou instituições palpáveis que me compartilhem ajudas necessárias às lidas com ‘minha cruz’.

Amigos, parentes, objetos, instituições, são, portanto, anjos materializados que meu Pai escalou para cuidarem de mim…

Meus filhos, biológicos ou não, me retribuem e saberão sempre me retribuir na medida de meus esforços aplicados na sua direção.

Meu cônjuge é aquela parceira que o foi sempre, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, da facilidade ou na dificuldade… Meu auxílio encarnado mais próximo.

Instituições de saúde estão aí à minha disposição… Se não são totalmente confiáveis é porque fazem parte de um Lugar de Expiações.

Que dizer dos livros, então? Supondo que na pior das hipóteses eu estivesse abandonado por cônjuge, filhos, amigos, instituições… Os livros não me abandonariam; eu estaria encontrando em cada um dos confiáveis as Divinas confirmações do zelo incondicional de meu Pai.

Jesus precisou e se deixou ajudar por Simão de Cirene. O Pai O amparou em hora da enorme vicissitude amorosa. Também a mim, em minhas agonias, não me faltarão socorro e auxílio… Para cada situação um Simão!

(A sintonia é do cap. Nunca estamos a sós, pg. 80 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

Fazia-se o mais absoluto silêncio nas proximidades do estaleiro ao qual eu estava ‘recolhido’… No final da tarde de inverno trabalhadores e pescadores daquela área já se haviam recolhido ao aconchego de seus lares.

Eu me mexia num suave bailado que me proporcionava a brisa suave e o mar calmo, meu habitat, meu aconchego… Ora, também eu possuía meu aconchego!

Parecia não haver ‘viva alma’ por perto, mas nos arredores avistei o vulto de um jovem rapaz e como estávamos solitários, ele e eu, procurei chamar-lhe a atenção e puxar conversa:

– Sabes?! – disse-lhe eu – fui ‘recolhido’ a este estaleiro pelo Prático destes Mares, pois me achava bem ‘doente’; meu motor sofreu avarias, mas já foi recuperado por Equipe Competente que aqui esteve, mas meu casco… Ah! Esse ainda carece de reparos… Está ‘botando água’!

O jovem, de uma forma lacônica, disse-me que disso tudo já sabia…

Intrigado e tagarela questionei meus botões – ou seriam as bóias que protegem meu casco? – como ele disso saberia?

Não contendo minha curiosidade e no afã de ‘desnudar’ o misterioso e novo companheiro, continuei com meu discurso:

– Breve, breve, retornarei às minhas travessias; passageiros, trabalhadores, parceiros, precisam com urgência de meus serviços; mais alguns reparos em meu velho casco, uma repintura, um retoque no meu letreiro e voltarei à ativa!

Mais tranqüilo ainda do que antes e com voz suave e clara, o jovem, que parecia estar ali junto comigo embarcado, disse:

– Sei também disso, meu caro amigo!

Meu amigo? De onde me conheceria? Como sabia ‘todas’ as coisas a meu respeito? Seria um de meus ‘clientes’ de travessia que eu não estava reconhecendo?

Não suportando mais a curiosidade questionei novamente o meu mais novo amigo:

– Afinal, meu amigo, quem és e como sabes tantas coisas a meu respeito?

Com a voz mais suave ainda disse ser um velho conhecido e que eu já  atravessara a ele e sua Equipe inúmeras vezes, porém, no afã de minhas tarefas ele passara despercebido…

– Mas e hoje meu amigo – questionei-o -, com derradeira pergunta, que fazes por aqui, em noite tão fria e perante minha temporária inutilidade? Por que não está no regaço de tua família?

– Minha família és tu – respondeu-me com iluminado carinho. Depois de me teres servido com desvelo, hoje, amanhã e até que melhores, eu é quem velarei para atravessares esta fase de temporária inutilidade!

* * *

O socorro está mais perto do que imaginamos. Ele, porém, se torna mais evidente quando a inutilidade temporária nos toma conta e precisamos retificar nossa máquina, reparar nosso casco, realizar-lhe uma repintura…

(Inverno de 2012).

Desleixar a oração é tal qual a mulher ou o homem abandonar o asseio próprio. Uma alma em prece assume uma ‘aparência vaidosa’. Doses ‘exatas’ de vaidade são necessárias ao corpo e ao espírito.

Se o homem deixar de raspar ou aparar sua barba, descuidar os cabelos, afeitar o bigode, logo passará um atestado de relaxamento; se descuidar suas roupas, de molambento.

E imaginar uma mulher ‘desarmada’ do batonzinho? E as roupas e sapatos ‘démodé’?

Se os cabelos estiverem com raízes brancas, aí sim, a coisa pega! Diz o ditado popular que mulher não fica velha; fica loira…

Quando todos esses sintomas aparecem na vida de mulheres e homens é porque o desleixo lhes bateu à porta… Sua auto-estima faliu!

A falta da prece é o desleixo espiritual e essa descontinuidade poderá acarretar a doença do espírito em trânsito por este Planeta.

Que tal uma alma bem apresentada, saudável, vigorosa… Sem raízes brancas?

A oração é a tintura de boa qualidade que lhe proporcionará não só a coloração harmoniosa como o tonificante necessário.

Assim como o asseio pessoal requer um conjunto de medidas, o asseio da alma também exige vigilância e oração. Desleixar a prece é “abandonar a si próprio ao vendaval das forças negativas”.

(Sintonia e citação são do cap. Nosso porto seguro, pg. 71 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

Fiel depositário dos anseios do Pai a meu respeito, o Mestre, nas rogativas do Pai Nosso me ensinou “perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos…” Do alto de meu orgulho, ainda prefiro, às vezes dizer-lhe ‘inútil me perdoares, Pai, pois ainda não quero perdoar meu irmão’; prefiro com ele duelar!

Ainda vibrando na faixa de meu ofensor, me deleito com a contenda; a vacina do perdão contra o vírus da inimizade… Essa eu prefiro deixar para depois!

Divino mediador, o perdão estabelece um divisor de águas entre o bem e o mal, entre o encarceramento e a liberdade, entre a vingança e a compreensão.

Tal qual um alvará de soltura o perdão me abre as portas do cárcere para a liberdade, para a luminosidade, para o sol, para a brisa no rosto…

O perdão é a sandália havaianas que coloco nos pés após uma longa jornada de sapato apertado. Raiva, ódio, contenda, incompreensão, apertam o sapato de minha alma.

Brisa no rosto, pés na areia, o chute da água, a sandália frouxa são analogias aos prazeres que me proporcionam o perdão, a complacência, a misericórdia, a benevolência.

Perguntaram certa vez ao Mestre das Levezas quantas vezes seria necessário perdoar… Foi categórico: “Setenta vezes sete”! Ele era leve porque, mais que ensinar, sabia perdoar…

Quando a gravata, ou o cinto, ou o sapato… Estiver apertado, o bom é fazer-lhes uma co-relação com o perdão. O perdão ‘desenosa’ gargantas, clareia vistas, desencarcera almas…

Só não venham me perguntar ‘se’ ou ‘dizer que’ é fácil!

Perante ‘apertos’ do duelo, da vingança, da inimizade… Havaianas, havaianas!

(Sintonia com os cap. Reconciliação com os adversários e Perdoar, perdoar, perdoar, pg. 65 e 66 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).