Archive for setembro, 2013

“… Porque ao que tem lhe será dado e ao que não tem até o que tem lhe será tirado” (Jesus/Lucas, XIX, 26).

Vivendo num atual sistema defensor do socialismo por vias democráticas, onde há cinco mandatos inúmeros benefícios através de ‘bolsas’, são estendidos às camadas mais desprotegidas, me parece que ao proferir tal aparente e contraditório disparate, – um dos tantos paradoxos do Mestre – Jesus estaria condenando o atual sistema Brasileiro de atendimento aos mais precisados…

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Não, queridos amigos, o Divino Professor quando proferiu a sentença supracitada, talvez sob os escaldantes quarenta graus dos dias de sua Palestina ou sob os suaves quinze da noite, ou ainda sob a brisa refrescante das margens do Mar da Galiléia… certamente que não estaria se referido a posses materiais, como qualquer tipo de bolsa que viesse minimizar os reclamos por ajuda de uma classe mais precisada. Referia-se o Mestre aqui nesta frase registrada pelo doutor e evangelista Lucas a outros bens mais perenes que todos os Espíritos terão condição de levar em suas bagagens, deste pobre Orbe terrestre, para a Pátria Definitiva…

O ‘ter’ aqui talvez deseje significar não um cabedal de santidade, próprio de poucos Espíritos, mas todos os esforços, boa vontade, vigilâncias, perseverança… que o indivíduo já conseguiu conquistar na busca de sua retidão. O ‘não ter’ será o totalmente inverso, ou as apatias, más-vontades, invigilâncias e deserções na busca do que é correto. Sem a pretensão de interpretar o que desejaria dizer o Mestre com tal sentença, é possível que:

  • Ao indivíduo preocupado – no bom sentido – com sua evolução, essa progressão naturalmente vai sendo anexada ao seu curriculum de Espírito nômade, mas se dirigindo ao Alto. Ao pouco preocupado com sua evolução estará reservado um maior número de retornos a Orbes densos;
  • Aos de boa vontade sempre será acrescida a boa vontade do Universo. Aos de má vontade reserva-se o complô de entidades perversas que buscarão o retardo de sua caminhada;
  • Ao vigilante, consciente do conluio das trevas, será acrescido o maior resguardo pelos Bons Amigos. Aos desmazelados morais as conseqüências negativas proporcionais aos seus descuidos; e
  • Aos perseverantes, no curso de sua estrada e porta estreitas, os sagrados créditos e acúmulo de bônus. Aos desertores que optaram pela estrada e porta largas, débitos lamentáveis que os convidem a um reinício, penoso, sofrido, doloroso, até readquirirem a consciência da inutilidade da retirada.

Vejam queridos amigos, que não há nada de material no ensinamento do Mestre. Aliás, evidente está que Ele se envolvia com as coisas do Espírito e sempre se referia às causas sutis e próprias do Reino de seu Pai…

… De uma forma um tanto paradoxal e apropriada ao Seu tempo, é claro, mas lançadas à observação dos séculos e milênios vindouros até que a Terceira Revelação as codificasse.

(Para Carla e Gentil Fabres, que nesta curta convivência, física ou/e virtualmente, me proporcionaram exemplos de retidão, seriedade e trabalho. Esta crônica se inspira na exposição de Carla, – ‘Ter e manter’ – realizada em 9 último no Recanto de Luz).

(Imagem 2, ‘o óbolo da viúva’, sinônimo máximo da generosidade. Sintonia com o Cap. Ter e manter do Livro da Esperança de Emmanuel/Chico) – (Inverno de 2013 com 30 graus).

“… Porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão.” (Lucas, VI, 36).

No segundo piso de sua confortável casa, junto a envidraçada porta sacada, o ‘cinqüentão’ sentava-se todas as manhãs para ler o jornal e outras obras de seu gosto. Distraía-se, entretanto, freqüentemente olhando a vizinha estender roupas no varal e comentava com a esposa: ‘Mulher, verifica como as roupas de nossa vizinha são encardidas… ’ Sua mulher nunca respondia nada. Repetidas vezes emitiu o homem tal comentário, até o dia em que, surpreso, exclamou à esposa que fazia sua lida: ‘Mulher, milagre! As roupas do varal da vizinha hoje branquearam!’ Calmamente a esposa lhe explica que as roupas da vizinha sempre estiveram brancas; é que na véspera a empregada havia limpado os vidros de sua aconchegante vidraça que há tempos estavam sujos… (Conto popular).

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Os indivíduos enxergam e julgam as coisas exatamente como desejam. É possível que o colorido ou o preto e branco das coisas que eu veja sejam exatamente consoante a cor de meus olhos. É possível, também que eu ‘deseje’ ver coisas encardidas, a despeito de todo o colorido que há lá fora: Como o personagem da fictícia história que jurava estarem sujas as roupas que a vizinha estendia no varal.

  • Manter a concentração naquela tarefa que realizo, seja ela braçal, intelectual, de pesquisa ou contemplativa;
  • Analisar minhas condutas diárias e os atos que passarão a me definir;
  • Vigiar meus pensamentos a respeito dos outros e pareceres que poderei emitir sobre suas pessoas;
  • Relacionar meus pontos fracos, as faltas nas quais incorro seguidamente e a imperfeição de meus sentimentos; e
  • Tornar-me o guardião tão somente de ‘meus’ sentimentos, procederes, avaliações; controlar o livro caixa de minha vida, verificando seus débitos/créditos e ser o investigador apenas de mim…

… É não correr o risco de ser medido “com a mesma medida”. Indivíduos administram dificuldades diferentes e as facilidades não são comuns a todas as pessoas. Patamares evolucionais se encontram em degraus diversos. Dores e aflições, sanidades ou insanidades físicas e mentais, facilidades, aptidões, destrezas, dificuldades, apuros e estorvos… são características de foro íntimo de cada irmão. Pessoas há que perseguem e colecionam a isenção e a independência de caráter; há pessoas que ainda tem dificuldade nessa tarefa!

Melhor do que julgar o próximo é entendê-lo e admitir que suas ainda dificuldades possam ser incomensuráveis, visto que os apuros pelos quais o vejo passar poderão representar apenas uma pequena quota das reais aflições que em silêncio ele administra. Espíritos, por serem ímpares, são também detentores de suas particulares dificuldades. A primeira proposta será eu administrar as ‘minhas’ dificuldades para, posteriormente, e se me for possível, interferir caridosamente no auxílio a terceiros.

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Para que não ocorra o inverso ou que a vizinha enquanto estende roupa em seu varal não venha a enxergar as ‘distorções’ de minha vida, e venha a me avaliar “com a mesma medida”, é necessário que eu esteja com minha ‘vidraça’ límpida, isenta e transparente…

(Sintonia: Cap. Não julgues teu irmão, pg. 133 de Meditações Diárias, de André Luiz/Chico Xavier, editora IDE) – (Inverno de 2013).

“Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão.” 1

A sala de aula é o Getsêmani. Sem toga, Jesus tem como alunos Simão Pedro, os outros onze, Malco um dos servos do sumo sacerdote e seus demais sectários. Não seria a primeira vez que o Nazareno, ante sua agonia iminente, demonstraria complacência, benevolência e oportunizaria as mais belas matérias sobre perdão.

A doutrinação do Mestre que antecedeu o seu holocausto, fala-nos, inúmeras vezes, de perdão; porém quando se aproxima sua agonia, o Divino Mártir e Professor, ao invés de lecionar essa matéria, passa a mostrá-la. O ódio, a vingança, o revide, a desforra, ora representados pela espada de seu ministro, não fariam parte, aqui, de nenhum meio auxiliar que iria utilizar nas suas derradeiras lições; muito pelo contrário, sobre sua cátedra, estavam piedade, compaixão e condescendência. Escreveria, pois, Jesus, na lousa do jardim das oliveiras, uma das mais convincentes mensagens sobre o que seria perdoar.

Se observarmos o todo da narrativa de Mateus, Malco, a lídima imagem da repulsiva hipocrisia sacerdotal, terá sua orelha decepada e, logo após, reconstituída, numa demonstração clara que o Mestre não desejaria o uso da espada, embora uma delas, em forma de lança, mais tarde lhe traspassasse o lado.

Por aqui, domiciliados nesta Esfera tri milenar nós vamos tentando assimilar-Lhe as lições. Conhecendo nossas limitações, temos consciência das dificuldades que enfrentaremos nessa área. De natureza explosiva e voluptuosa, vamos, aos poucos, tentando contê-la em aproveitando aconselhamentos de predecessores messiânicos que, ciclicamente nos são enviados e tentam nos reeditar as divinas lições do Nazareno:

Tribuno humanitário e doutor devotado àqueles dilacerados por outras espadas, Bezerra de Menezes nos adverte que “aquele que não perdoa, obsta o perdão para si mesmo [e] torna-se presa fácil dos seus credores encarnados e desencarnados…” Na abrangência de suas máximas sobre esta virtude, continua o ‘Médico dos Pobres’: “… Se o homem perdoasse mais:

  • As penitenciárias estariam mais vazias;
  • Os hospitais não seriam tão utilizados;
  • O homem tomaria menos remédios;
  • Os lares viveriam com mais harmonia e
  • A própria vida na Terra seria bem mais fácil de ser vivida.” 

E conclui o abnegado doutor: “O perdão interrompe o ciclo de dor e sofrimento em que a criatura humana se encontra por crer mais na vingança do que no perdão.”2

Neste episódio do horto, que ocorreu logo após as Divinas orações, meditações e vigílias, Jesus concita-nos a munir-nos dos mais puros sentimentos de desculpas àqueles que menos amamos, antes de efetuarmos nossas oblatas, súplicas ou louvores.

Perdoar, por mais difícil que possa parecer é embainhar a nossa espada; é ensarilharmos as armas do ódio, da vingança, das contendas, da desforra e não corrermos o risco de morrermos pela espada dessas moléstias; é deleitar-nos, não num Getsêmani de agonias, mas na escola de um Jardim das Oliveiras de tréguas, aprendizados e aproveitamentos. Na hora do recreio, certamente faremos belos comentários sobre essa aula que não perdemos e chegaremos à conclusão que ela será fundamental para ingressarmos na Superior Escola.

(Subsídios: 1. Mateus, 26, v. 52; 2. Dr. Bezerra de Menezes/De Lucca – Recados do meu Coração; Pg. 65 e 66) – (Manhã de janeiro na orla; verão de 35 graus e seca intensa).

Pub O Clarim, Set/2013

“O homem, para progredir, [e] porque não dispõe de todas as faculdades, precisa se relacionar com os outros homens. No isolamento se embrutece e se enfraquece. [Dessa forma], há um objetivo providencial [na Lei de Sociedade]…” (Questão 768 de O Livro dos Espíritos).

Em relações ecológicas, as harmônicas ou positivas se caracterizam pelo benefício de ambos os seres ou de somente um sem o prejuízo do outro. Neste assunto há que se considerar a protocooperação: Na relação entre anu/bovinos a ave se alimenta dos indesejáveis carrapatos aos bovinos; bem-te-vis se servem de insetos inoportunos a eqüinos e bovinos; o pássaro-palito além de restos alimentares come as sanguessugas da boca dos jacarés. Inquilinismo: As orquídeas se grudam no topo das árvores, para alcançar os raios de sol, sem, no entanto ser-lhes prejudiciais. Comensalismo: A rêmora, que acompanha o tubarão, aproveita-lhe os restos de comida… 1

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Ao compor as Obras Básicas com a colaboração dos Clarões Celestiais, Kardec não ignoraria, de forma nenhuma, exemplos que a Mãe Natureza sobejamente dita aos filhos da Terra nos quesitos parceria. Deus, em sua Infinita Sabedoria, a fim de consolidar a Obra de sua Criação, desejou ‘precisar’ do homem como parceiro do próprio homem. Estes indivíduos, de Espíritos ímpares e possuidores de evoluções diferenciadas, faculdades diferenciadas e competências também diversas, precisariam colocar-se à disposição uns dos outros para que cumprissem a Lei de Sociedade, de Progresso e de Igualdade: “O que um não pode ou não sabe fazer, o outro faz” (Idem, questão 804).

Portanto, mais que um ‘toma lá, dá cá’, estabelecer-se-ia entre os viventes uma relação de dependência, visto darem-se de conta que o Pai lhes providenciou – de Providência Divina – viver num Planeta de parcerias, e que esse consórcio lhes exigirá não esquecer que:

1. O indivíduo é um Espírito ‘nômade’, vive se mudando daqui para ali, dali para acolá ou retornando ao ponto de partida. A sua estima sempre será avaliada pelo frisson que causará nas outras pessoas por ocasião de sua partida ou do retorno a um lugar em que já viveu. Se ele deu ele receberá – também ‘o’ que deu, receberá; se ele estimou, será estimado; sua partida será chorada e seu retorno será aplaudido; ou não! Nesse caso a lei de ação e reação será implacável.

2. Gentilezas geram gentilezas: Por ocasião de suas chegadas e partidas que tipos de auxílios e compreensões os indivíduos receberão? As mesmas que um dia jogaram no Universo! Vizinhos farão sentidas despedidas ou calorosas recepções consoante às gentilezas de que foram objeto pela parceria… Ou não!

3. Parceiros são heterogêneos: Por entenderem coisas desiguais e possuírem faculdades desiguais é que eles se completarão; volta-se ao “o que um não pode ou não sabe fazer, o outro faz”. E os indivíduos também possuirão deficiências. E cada qual terá as suas. Então por que eu anunciar em alto falante ou megafone as ainda insuficiências alheias se eu também possuo as minhas? A desculpa às próprias faltas pressupõe o indulto às dos outros!

4. Se gentilezas geram gentilezas, as irritações também provocarão irritações! Ir abaixando o volume da prosa até deixá-la no ‘mute’, muitas vezes poderá ser a solução. Quem sabe o silêncio da palavra não poderá aplacar a ira do destempero?!

5. O chulo ditado “pergunta idiota, tolerância zero” também poderá ser aplicado ao consórcio. Indivíduos com perguntas e respostas comedidas e que sabem elevar o trabalho de seus parceiros, verão valorizados seus trabalhos e se sentirão no meio de consortes também reverentes.

6. A parceria seja feita não só no trabalho, mas também no estudo: Se fiquei sabendo de algo que não sabia, mas que o parceiro me explicou, já estarei apto a passar adiante essa explicação. Dessa forma serei a ‘rêmora’, o ‘pássaro-palito’ ou a ‘orquídea’ a buscar socorro junto aos mais sábios. Não há maior sabedoria que ocupar o ‘tempo vago’ em estudar, aprender, ensinar.

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Parceria é luz. O parceiro ou consorte é aquele que, ao me livrar da agonia de uma dificuldade promove um clarão que iluminará não somente a mim, mas a todos os que o rodeiam. Que esse clarão seja promovido dentro de uma possível gratuidade. Se provindo de uma faculdade gratuita, que seja também distribuído gratuitamente!

1. Wikipédia, a enciclopédia livre; Protocooperação (imagens 1 e 2); inquilinismo (imagem 3); e comensalismo (imagem 4) – (Sintonia: Cap. Desobsessão sempre, pg. 129 de Meditações Diárias, de André Luiz/Chico Xavier, editora IDE) – (Inverno de 2013).