Archive for julho, 2015

tumblr_m6htfiPQXo1qka5jeo1_r1_500Corria o mês de abril e em nosso terceiro ano do ESDE, estudávamos o roteiro Esferas espirituais da Terra e mundos transitórios. Comentávamos de como a tônica do bem e do mal se faria presente em nossos estudos no corrente ano. E falávamos, é evidente, de como seria nosso desencarne e a qual dessas ‘esferas’ seríamos candidatos…

Em determinado momento a pergunta de um dos companheiros tornou-se inevitável:

– ‘Para onde’ iremos, após o nosso desencarne?

Ante os olhos arregalados da maioria, propusemos-lhes uma pequena analogia: Imaginemos que todos estejamos nos preparando para ‘essa partida’, para a nossa ‘viagem’ e que nossa mala já esteja preparada. Coloquemos nossa mala sobre a mesa e passemos a examiná-la:

Se estiver com muitas roupas leves, bermudões e camisas floreadas, sandálias multicoloridas… venderemos a idéia de que iremos passar temporada no Caribe ou, se nossos recursos não o permitirem, poderemos ir para mais perto; Florianópolis, por exemplo.

Entretanto, se nossa mala estiver atopetada de agasalhos, muitas roupas de lã, luvas, toucas… é muito provável que estejamos indo para o Alaska, ou, se para mais perto, bem para o Sul; Patagônia, quem sabe?!

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Nas questões espirituais, e mais propriamente com relação à morte de nosso corpo físico, o ‘para onde nós iremos’, poderá ter a sua resposta exatamente dentro da mala que temos preparado. Ou, o ‘do que’ estiver ela repleta, denunciará o local para onde estaremos indo:

Golpe-do-BauSe nossa mala estiver cheia de tudo aquilo que doamos, e aqui não estamos falando em linguagem paradoxal, mas exatamente dentro da Lei de justiça amor e caridade, nosso ‘destino’ será a esfera compatível com essa Lei e com o nosso apronto.

Mas se em nossa mala houvermos reunido todos aqueles pertences materiais aos quais estivemos até agora muito apegados, e vários baús não chegará, pois precisaremos reunir casa, carros, terras, roupas, sapatos, ouro… tenhamos a certeza que todos estes penduricalhos não nos levarão de imediato a lugar nenhum, pois ficaremos conectados, por muito tempo, às tralhas da crosta que passamos uma reencarnação inteira amando e endeusando.

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“Independente da diversidade dos mundos, essas palavras de Jesus (‘há muitas moradas na casa de meu Pai’) também podem referir-se ao estado venturoso ou desgraçado do Espírito na erraticidade. Conforme se ache este mais ou menos depurado e desprendido dos laços materiais, variarão ao infinito o meio em que ele se encontre, o aspecto das coisas, as sensações que experimente, as percepções que tenha (…). Também nisso, portanto, há muitas moradas, embora não circunscritas, nem localizadas.” (ESE, Cap. III, item 2).

(Inverno de 2015).

lazaro_ressuscita_3Jesus amava demais a Lázaro e às suas irmãs Marta e Maria. Sem dúvida, tais ‘laços’ não eram recentes, pois conta-nos as Escrituras que Jesus teria chorado quando Marta lhe dá a notícia que o irmão estava morto há quatro dias.

O que houve no episódio de Lázaro foi, realmente o ressuscitamento de um estado de síncope letárgica para o estado de lucidez…

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Questionado por Chico, Emmanuel tem duas considerações importantes sobre o episódio o qual evidencia o compromisso de Jesus para com Deus e seu compromisso para com a Humanidade:

Primeiro: O episódio de Lázaro era um selo Divino, identificando a passagem do Senhor – Precisava-se dar entender à Humanidade que a ‘aposta’ do Criador no Governador Jesus, estava correta; aqui o atributo Onipotente da Divindade. Quando o próprio Mestre declara que “meu Pai e eu somos um”, está patente em tal expressão seu aspecto Divino/Sagrado. Jesus só poderia ter sido nomeado pelo Criador, Governador de nosso Orbe, dado o potencial de sua Pureza. Aqui, o compromisso de Jesus para com Deus.

Segundo: A simbologia mostra a ação do Cristo sobre o homem, testemunhando que o seu amor arrancava a Humanidade do seu sepulcro de misérias – Jesus envidaria todos os esforços dignos de um Espírito Puro, para deixar à humanidade as mais belas lições morais e de compaixão. Não haveria, portanto, melhor guia e modelo para os filhos de Abraão, sua descendência e para a toda a Humanidade. Aqui o seu compromisso para com a Humanidade.

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Quando nos encontrarmos em profunda letargia moral, quando tudo parecer insolúvel, quando tudo parecer sumir aos nossos pés, lembremo-nos deste Amigo, que demonstrou com suas lágrimas o quanto amava a Lázaro e, em extensão, a todos nós!

(Sintonia: Questões 317 de O Consolador, de Emmanuel e Francisco Cândido Xavier, 29ª edição da FEB) – (Inverno de 2015).

Shirmann-em-Noronha-2“A maior dificuldade, em uma expedição, não são as tempestades ou outras condições adversas da Natureza, mas as inter-relações afetivas visto sermos oito pessoas dividindo um espaço de 150m2.” (Vilfredo Schürmann, navegador e pai da família de mesmo sobrenome).

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Com propriedade e sabedoria de bom marujo e pai, ‘seu’ Vilfredo desejou nos informar que muitas vezes as tempestades afetivas do círculo familiar, do trabalho, ou sociais, são mais difíceis de administrar que todas as possíveis borrascas naturais que um navegador enfrenta.

Para nós que possuímos a consciência de que nem todos os que se aninham em nosso círculo familiar o farão por afetividade, mas muito comumente para acertos, por força da sagrada Lei de Causa e Efeito, já não estranhamos muito a colocação do Sr. Schürmann.

A regra, que não deveria ser a regra, mas a exceção é a seguinte: Onde há convivência há encrenca, pois vivemos na sociedade de um Orbe onde ainda o mal se sobressai. Ainda não somos uma cooperativa perfeita, pois o Planeta também não é perfeito. Vivemos ainda num Planeta, em situação desvantajosa de competição com nossas más inclinações.

Não tenhamos dúvidas que nosso orgulho, vaidade e egoísmo são mais destruidores que a pior das borrascas.

Ademais, tais inter-relações não se estabelecerão somente com os ‘carne de nossa carne’, mas se estenderão a parentes espirituais que iremos reencontrando ao longo de nossas vidas e, como na família, nem todos esses reencontros serão de regozijo; também os haverá de ressarcimento.

Tornamo-nos, de certa forma, responsáveis por todos aqueles que encontramos, reencontramos e cativamos e que se revelarão como nossa família espiritual. Os cuidados mútuos passam a ser responsabilidade das partes, tanto dos que se agradam como dos que ainda se execram.

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Todos no mesmo barco, pelo sangue e/ou pelo Espírito, somos convidados a enfrentar tempestades, não literalmente as da Natureza, mas todas aquelas que são fruto de teimosias morais que ainda obstinamo-nos em colecionar.

(Sintonia: Programa Encontro, com Fátima Bernardes, 10 de julho de 2015. Imagem: Família Schürmann) – (10 Jul, inverno de 2015).

arregacar as mangas[1]É muito cômodo transferirmos nossas responsabilidades para alguém, principalmente se esse alguém for Deus, o Poder Maior.

Quando a tarefa exige desvantagens ou humildade, se não der certo, levantamos as mãos e dizemos com “falsa” humildade: “Foi feita a vontade de Deus!” Transformamos nosso Criador em nosso servidor, sem a menor cerimônia.

Felizes somos pela Doutrina Espírita que, a todo instante, nos conscientiza que Deus nos empresta todos os ingredientes necessários para a realização do nosso trabalho e nosso aperfeiçoamento.

Nossas dificuldades e necessidades por nós foram solicitadas, às vezes até com muito mais intensidade e o Plano Maior as ameniza, sabendo que ao reencarnarmos, abençoados pelo véu do esquecimento, vamos nos acomodar e tudo delegar ao nosso Pai.

Em nossas preces, rogamos a Jesus nosso Mestre, nosso Guia, sem lembrar que ele tudo fez para nos ensinar por si mesmo, não transferindo nada para Deus.

Peçamos sempre ao Pai Maior, força e Luz, coragem, sabedoria e discernimento para largarmos o nosso comodismo e sem demora abraçarmos a renovação que o Evangelho nos sugere.

Por uma consciência tranqüila, devemos arregaçar as mangas, abraçar o trabalho e ter certeza que faremos tudo o que nossa força permitir, para o êxito do nosso compromisso.

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Não alteremos a ordem das tarefas: Deus é o Patrão, Jesus o Divino Administrador ou Empreiteiro Dele. Nós, os empreitados, somos convidados a, exatamente dentro de nossa capacidade, a trabalhar na continuação da obra fantástica da Criação.

(Escrito por Maria de Fátima Souza Silveira em sintonia com Sol nas almas, de Waldo Vieira, ditado pelo Espírito André Luiz, Cap. Entregar para Deus, 1ª edição da Boa Nova) – (Inverno de 2015).

shutterstock_hands-600x300O associativismo cooperativista tem como um de seus fundamentos o progresso social da cooperação e o auxílio mútuo, segundo o qual aqueles que se encontram na mesma situação desvantajosa de competição conseguem, pela soma de esforços, garantirem a sobrevivência. (Wikipédia).

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A fraternidade – segundo Hammed, Espírito, “a religião superior ou natural do futuro” – não deixa de ser um cooperativismo.

Cooperativas sempre será uma troca de auxílios ou o ‘feixe de varas’ que torna o todo mais robusto. À cooperativa, ofereceremos os produtos de nosso esforço e competência. Serviremos aos demais cooperados com nossos produtos e teremos ao nosso dispor produtos e serviços outros.

A fraternidade é, também, uma troca de ajudas. Vivendo ainda num Orbe, em situação desvantajosa de competição com nossas más inclinações, seremos o auxílio dentro de nossas competências e seremos auxiliados em assuntos para os quais ainda não possuamos competência.

Num Planeta já regenerado, ou onde se aplicará a “Religião do Futuro” de Hammed, a tônica será só a cooperação, pois já não haverá mais a predominância do mal e este está vinculado intimamente ao egoísmo.

Ao permitir ser ajudado por Simão de Cirene Jesus nos lecionará sobre a necessidade de cooperação fraterna entre os homens, em todos os trâmites da vida. Ou, em todas as trilhas, óbices, estorvos e embaraços, se sustentados pela cooperativa fraternidade, tais trâmites se nos apresentarão mais leves, pois cooperativados seremos, e, como o feixe de varas, mais fortes.

Jesus, no episódio, ainda nos lecionará que Simão, de Cirene, considerado naquela época como gentio, pois de fora do território Judeu professaria a mais afetuosa fraternidade quando, superando o “ser religioso” desenvolveu em si o “ser religiosidade.”

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Nossa vida, ainda carnal, necessita da analogia da cooperativa terrena para conseguirmos entender que nas questões do Espírito também precisamos de boas parcerias encarnadas e desencarnadas para suprirmos as desvantagens sobre as teimosias que ainda teimamos em colecionar.

Parafraseando o discurso de certo cacique norte-americano Seattle, diríamos que “tudo o que acontece com a cooperativa acontece com os cooperativados. O associado não tece a teia da cooperativa. Ele é apenas um fio. Tudo o que faz à cooperativa ele faz a si mesmo”; e aqui entendamos a fraternidade como uma cooperativa.

Jesus buscaria seus cooperadores dentre as diversas classes sociais e a caminho da hora derradeira, não declinaria da ajuda de Simão de Cirene para auxiliá-lo a carregar a cruz.

Confrades, e como são pesadas as nossas!…

(Sintonia: Questão 316 de O Consolador, de Emmanuel e Francisco Cândido Xavier, 29ª edição da FEB e Os prazeres da alma, de Francisco do Espírito Santo Neto, ditado por Hammed, Cap. Afetividade, 4ª edição da Boa Nova) – (Inverno de 2015).

9fx8ov38oyqxabxcexybg8i53O episódio do lava pés é eminentemente apostólico/instrutivo. Em João 13, 8-9, tomando a iniciativa de lavar os pés dos seus, trava-se o diálogo entre Jesus e Pedro:

– “Jamais me lavarás os pés!…”

– “Se eu não os lavar, não terás parte comigo.”

– “Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça…”

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Necessário se diga que Jesus não conseguiria higienizar cem por cento pés ‘encascurrados’ pelo uso contínuo de sandálias na poeirenta Galiléia. Trata-se, portanto, de episódio didático.

Emmanuel dirá que queria o divino Mestre testemunhar às criaturas humanas a suprema lição da humildade [e que] na coletividade cristã, o maior para Deus seria sempre aquele que se fizesse o menor de todos. Mais adiante, que quis proceder desse modo para revelar-se o escravo de amor à humanidade, à qual vinha trazer a luz da vida.

Termos parte com Jesus: Não somos mais os iniciantes das lides Crísticas. Embora nos consideremos eternos aprendizes dele, é-nos imperiosa a condição principal do Mestre para que sejamos conhecidos como seus lidadores e aprendizes:  a de que nos amemos uns aos outros e se nos amarmos que estejamos aptos a também escravizar-nos por sua causa junto a todos aqueles que precisam ter os pés, mãos e cabeças ‘lavados.’

Conduzir pés: Quantas vezes nós e nossos irmãos andamos ‘em círculos?!’ Mas se já conseguimos experimentar caminhos retos, por que não ajudarmos a tirar nossos irmãos ‘das quebradas?’ É possível que seus pés estejam precisando da água, toalha e os calçados de nossa generosidade.

Mãos engessadas: A soberba engessa mãos. A boa vontade e humildade será sempre aquela escrava do amor que as liberará.

Cabeças lavadas: Não estamos mais sob ditaduras dogmáticas. Tão pouco, queiramos introduzi-las em nossa doutrina liberta, já que, a partir do século das luzes, – iluminismo, 1650 a 1790 – e precursor da codificação, a razão passa a não mais compactuar com dogmas. Poderemos equivocar-nos em questões doutrinárias, em direções e coordenações… mas não em fraternidade! Fé advém da razão e de obras; e para obrarmos impõe-se a virtude do humilde servir.

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Do ‘varredor’ ao diretor, quem é o maior em nossa coletividade cristã hoje? Não será o apequenado pela humildade e pelo serviço?

Queridos confrades: Que possamos lavar, diariamente, todos os pés, mãos e cabeças que sejam necessários!

(Sintonia: Questões 314/15 de O Consolador, de Emmanuel e Francisco Cândido Xavier, 29ª edição da FEB) – (Inverno de 2015).

50994_papel-de-parede-farol-da-costa_1920x1440– Visitante: “… Não desejais, pois, fazer prosélitos (adeptos)?”

– Allan Kardec: “Por que eu desejaria fazer de vós um prosélito se vós mesmo isso não o desejais? Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que me dão a honra de solicitar-me esclarecimentos, é para mim um prazer e um dever (…) Os mais incrédulos serão arrastados pela torrente. Alguns partidários a mais, ou a menos, no momento, não pesam na balança. Por isso, não vereis jamais zangar-me para conduzir às nossas idéias aqueles que têm tão boas razões como vós para delas se distanciarem.”

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Este diálogo, pouco difundido e que se encontra no início do Cap. Primeiro de O que é o espiritismo, leva-nos a algumas reflexões muito sérias no atual contexto de modernidade e a facilidade dos atuais meios de comunicações e divulgação da doutrina:

  • Na maioria das vezes, divulgamos anonimamente. O ‘terreno’ que recebe a semente sequer sabe quem é o semeador;
  • Desejamos uma germinação automática, quando sequer sabemos se nosso leitor isso mesmo o deseja;
  • Infelizmente, dado nosso orgulho, vaidade e egoísmo, não desejamos adeptos, mas simpatizantes àquilo que ora escrevemos ou à forma atraente que julgamos estar utilizando;
  • Não estamos preocupados em saber se ao menos ‘um’ leitor, de boa vontade assimilou a orientação, ensinamento, exortação; e
  • Finalmente, e o mais grave, estamos preocupadíssimos com a ditadura do alcance, visualizações, curtidas, compartilhamentos, comentários…

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Se o próprio Kardec não desejava fazer prosélitos – adeptos, seguidores… [aqueles que] não o desejavam, como impor-nos tal responsabilidade? Apesar de haverem, segundo o codificador, o prazer e o dever da divulgação, por que zangar-nos perante o natural desinteresse até de confrades por aquilo que estamos tentando proclamar?

O clichê (molde) da atual ‘febre’ de divulgação não nos deverá atingir, visto que a tarefa de semear nos exigirá a boa semente do fundamento, mas os solos sempre serão de naturezas variadas, de germinação e crescimento diferenciados, e os louros da colheita a nós não estarão afetos.

(Sintonia: O que é o espiritismo, Allan Kardec, tradução de Salvador Gentile, Cap. Primeiro, Pequena conferência espírita, Primeiro diálogo – O crítico, 27ª edição do IDE) – (Outono de 2015).

1770163345_1364647994Em pleno Sahel africano – faixa horizontal que delimita o final do deserto do Saara e as savanas do centro do continente – localiza-se a República semi-presidencialista Burkina Faso, oeste africano e ainda na parte mais árida da faixa. Nesse país de pouca relevância, vive Yacouba Sawadogo, negro, muçulmano, de idade não revelada e fazendeiro humilde.

Observador do clima de sua região, Yacouba percebeu que lá chovia apenas numa época do ano e que entre as décadas de setenta e oitenta do século passado a estiagem se acentuou. Inconformado com a situação, o fazendeiro, que aparenta ter hoje mais de setenta anos, resolveu aplicar nos trinta hectares de sua fazenda a técnica zaï, de seus antigos ancestrais:

Antes das chuvas previstas por suas observações, Yacouba fez à picareta no solo árido e endurecido, – pois enxada não lhe entrava – inúmeras covas como se fosse para plantar mudas de árvores. Deitou nelas farta compostagem à base do estrume abundante na área, sementes trazidas de árvores distantes e tomou como seus aliados cupinzeiros muito comuns na região os quais estabeleceram verdadeiras galerias entre as covas. Realizou, ainda, pequenas comportas de pedras – diques – para que a chuva esperada escoasse mais lentamente. Feito o preparo, agora Yacouba esperaria as chuvas…

E as chuvas vieram, inundaram o Sahel e ficaram retidas nas covas. As primeiras sementes germinaram e encontraram calor e umidade. Mas Yacouba não venceria o deserto apenas no primeiro ano: Foram necessários trinta e cinco anos para que seus trinta hectares se transformassem numa reserva verde com mais de sessenta espécies de árvores de sementes nativas.

Outras culturas vieram: sorgo e milho; e alimentaram o povo; e o Yacouba ‘louco’ e ‘burro’ – assim era chamado no início – já era o Yacouba salvador, gênio, artista; o missionário de hoje!

Yacouba, não se intitulando dono da técnica zaï, instala nas fazendas próximas workshops – oficinas – visando se alastrarem suas idéias. Mais recentemente, Yacouba seria convidado por Barack Obama para apresentar-se em Washington e discursar sobre suas iniciativas; também participaria como palestrante a respeito de seus empreendimentos em conferência realizada na Coréia do Sul1

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Na orientação do Benfeitor Emmanuel, arte significa “a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse ‘mais além’ que polariza – concentra – as esperanças da alma.”2 e ainda que “os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas [paralisias] do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das idéias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos das atividades que lhes é própria, como a literatura, a música, a pintura, a plástica.”3

Verifiquemos que na personalidade em estudo não estamos vendo o artista em atividades da literatura, música, pintura, ou da plástica, mas um indivíduo focado numa responsabilidade primária que chamou para si, a fim de contornar uma calamidade e, ao invés de ficar paralisado, como os demais de seu povo, desejou tornar-se o missionário das idéias, exatamente dentro de um potencial evolutivo que já possui.

Continuará Emmanuel: “Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão somente a luz espiritual (…) então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus…”4 Se ‘inevitáveis serão os escândalos, mas ai do que causá-los’, inevitáveis e instrutivas também serão as catástrofes e calamidades e, por sua vez, venturosos e graciosos os missionários que, envolvidos na luz espiritual do Governador Jesus, para essas calamidades apresentarem soluções.

Jesus, em todas as épocas, desde a formação do Orbe, até os tempos presentes, sempre esteve a inspirar os antigos e novos profetas. Ao escolher ‘os seus’, não fez distinção entre o humilde pescador e o coletor de impostos. Como não o fez ‘encarnado’, o que importa a esse Administrador não será as aparências do artista, missionário ou profeta – se branco, negro, muçulmano, cristão, padre, com túnica, de paletó e gravata… Importa a este Zeloso, o desinteresse do eleito, sua abnegação, amor à causa, vontade de solucionar previstos e imprevistos.

Tais missionários, mormente os novos profetas, poderão estar ‘disfarçados’ de fazendeiros, muçulmanos, padres, madres, reverendos, escriturários, bandeirantes, médicos, sob solidéus… Há um propósito convicto do Mestre e títulos, rótulos ou designações serão irrelevantes, haja vista o personagem a que hora nos reportamos e mais tantos outros como São João Bosco, madre Tereza e irmã Dulce, Martin Luther King Jr., Francisco Cândido Xavier, Cairbar Schutel, Bezerra de Menezes, Divaldo Pereira Franco, Jorge Mário Bergoglio…

Não somos profissionais religiosos; professamos confissões diferentes! Entretanto, todo aquele que ‘professar Cristo’, independente da cor de sua batina, paramento, ritual, cor, casta, credo, corrente… fará parte da religiosidade futura que se chamará fraternidade. Caridade e fraternidade são os grandes imunizantes contra o orgulho que teima em nos aniquilar e imobilizar-nos as tarefas. Enquanto que a fraternidade é o conveniente consórcio de talentos a serviço de uma comunidade, a caridade é nossa quota de retribuição aos consorciados, mormente aos menos aquinhoados de possibilidades materiais, morais e intelectuais.

Nossas fala, escrita, ações e trabalhos, só terão validade quando se aproximarem ao máximo de decorrente vivência. A profissão religiosa é irrelevante e não representa nenhum empecilho se a intenção for a de servir constantemente. Ou André Luiz não teria, costumeiramente, um padre em sua equipe de socorro espiritual às regiões dos mais necessitados! Ou Yacouba seria estigmatizado não por ser negro, mas por ser muçulmano, estes tão execrados na história dos nossos dias.

Nossas iguarias, lar, bem estar, inteligência, autoridade… estão todos ancorados por confrades dedicados que diuturnamente por nós se devotam. Todo retorno em forma de caridade e bem querença a eles retribuídos, nos vacinará contra o egoísmo e homologará nossas sociedades verdadeiras. Quando as aldeias vizinhas de Yacouba se deram de conta que o missionário estava no caminho certo e obstinado às melhores intenções possíveis, ou quando deixaram de taxá-lo de louco, a ele se uniram e, dentro de sua técnica, passaram a plantar mais, a colher mais e a terem alimento mais farto. Porque o missionário, aquele banhado pela luz espiritual de seu Governador também é um influenciador em potencial; também é o grande agente de contágio do bem.

Quando Emmanuel nos dá o significado de artista, nos perguntamos como os vemos, em nosso meio, no dia a dia e se os vemos? Poderão ser todos aqueles que, reconhecendo o exato potencial de suas habilidades, – nem mais, nem menos – as desenvolvem dentro também de uma luz espiritual, ou realizam o mais além para que, na forma de serviço, promovam soluções, reflexões, instruções, consolações… todas essas ao nosso alcance em maior ou menor escala!

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“Se você ficar em seu próprio cantinho, todo o seu conhecimento não tem qualquer utilidade para a humanidade”, diria em sua simplicidade Yacouba Sawadogo, ao demonstrar consciência de sua responsabilidade e dando-nos a entender que ele, fugindo ao convencionalismo terrestre, e embora sem a pretensão de ser o grande missionário das idéias, não desejou nunca desertar da responsabilidade de, exatamente dentro de seu patamar evolutivo, colaborar com as soluções que estiveram ao seu alcance e façam já parte de seu acervo de artista, missionário e profeta.

Arte é aquilo que fica: Passam-se anos, séculos e a boa música será executada; a tela e seu pintor serão cobiçados; o poeta será recitado; o ator será aclamado; o pesquisador será reconhecido; o servidor será imortalizado; profecias e profetas ecoarão; e o missionário será venerado…

“Yacouba sozinho teve mais impacto no combate à desertificação do que todos os recursos nacionais e internacionais combinados.” (Dr. Chris Reij, Vrije University of Amsterdam).

Bibliografia:

1. Baseado no documentário de Mark Dodd (2010), O homem que parou o deserto;

2. Xavier, Francisco Cândido, ditado por Emmanuel, O Consolador, questão 161, 29ª edição da FEB; e

3 e 4. Idem, questão 162 – (Outono de 2015).

Pub RIE Jul/2015