Crônicas doutrinárias

Aula do Getsêmani: Perdão “sem espadas”

“Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão.” 1

A sala de aula é o Getsêmani. Sem toga, Jesus tem como alunos Simão Pedro, os outros onze, Malco um dos servos do sumo sacerdote e seus demais sectários. Não seria a primeira vez que o Nazareno, ante sua agonia iminente, demonstraria complacência, benevolência e oportunizaria as mais belas matérias sobre perdão.

A doutrinação do Mestre que antecedeu o seu holocausto, fala-nos, inúmeras vezes, de perdão; porém quando se aproxima sua agonia, o Divino Mártir e Professor, ao invés de lecionar essa matéria, passa a mostrá-la. O ódio, a vingança, o revide, a desforra, ora representados pela espada de seu ministro, não fariam parte, aqui, de nenhum meio auxiliar que iria utilizar nas suas derradeiras lições; muito pelo contrário, sobre sua cátedra, estavam piedade, compaixão e condescendência. Escreveria, pois, Jesus, na lousa do jardim das oliveiras, uma das mais convincentes mensagens sobre o que seria perdoar.

Se observarmos o todo da narrativa de Mateus, Malco, a lídima imagem da repulsiva hipocrisia sacerdotal, terá sua orelha decepada e, logo após, reconstituída, numa demonstração clara que o Mestre não desejaria o uso da espada, embora uma delas, em forma de lança, mais tarde lhe traspassasse o lado.

Por aqui, domiciliados nesta Esfera tri milenar nós vamos tentando assimilar-Lhe as lições. Conhecendo nossas limitações, temos consciência das dificuldades que enfrentaremos nessa área. De natureza explosiva e voluptuosa, vamos, aos poucos, tentando contê-la em aproveitando aconselhamentos de predecessores messiânicos que, ciclicamente nos são enviados e tentam nos reeditar as divinas lições do Nazareno:

Tribuno humanitário e doutor devotado àqueles dilacerados por outras espadas, Bezerra de Menezes nos adverte que “aquele que não perdoa, obsta o perdão para si mesmo [e] torna-se presa fácil dos seus credores encarnados e desencarnados…” Na abrangência de suas máximas sobre esta virtude, continua o ‘Médico dos Pobres’: “… Se o homem perdoasse mais:

  • As penitenciárias estariam mais vazias;
  • Os hospitais não seriam tão utilizados;
  • O homem tomaria menos remédios;
  • Os lares viveriam com mais harmonia e
  • A própria vida na Terra seria bem mais fácil de ser vivida.” 

E conclui o abnegado doutor: “O perdão interrompe o ciclo de dor e sofrimento em que a criatura humana se encontra por crer mais na vingança do que no perdão.”2

Neste episódio do horto, que ocorreu logo após as Divinas orações, meditações e vigílias, Jesus concita-nos a munir-nos dos mais puros sentimentos de desculpas àqueles que menos amamos, antes de efetuarmos nossas oblatas, súplicas ou louvores.

Perdoar, por mais difícil que possa parecer é embainhar a nossa espada; é ensarilharmos as armas do ódio, da vingança, das contendas, da desforra e não corrermos o risco de morrermos pela espada dessas moléstias; é deleitar-nos, não num Getsêmani de agonias, mas na escola de um Jardim das Oliveiras de tréguas, aprendizados e aproveitamentos. Na hora do recreio, certamente faremos belos comentários sobre essa aula que não perdemos e chegaremos à conclusão que ela será fundamental para ingressarmos na Superior Escola.

(Subsídios: 1. Mateus, 26, v. 52; 2. Dr. Bezerra de Menezes/De Lucca – Recados do meu Coração; Pg. 65 e 66) – (Manhã de janeiro na orla; verão de 35 graus e seca intensa).

Pub O Clarim, Set/2013

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