D. Cristiane já havia atendido a uma turma de turistas de fora do estado, mas sem sinais de cansaço nos recebeu, com sorriso largo e um ‘portuliano’ fluente e gracioso, na primeira casa, a de pedra, construída em 1876 por Giovanni Strapazzon. Entre uma degustação e outra de ótimos vinhos, sucos, grapas e licores – Amaretto, o melhor deles – a simpática senhora nos contava que ali foram filmadas cenas de O quatrilho e que tal evento impulsionaria a visitação à sua propriedade.

Num lote todo emoldurado por belos parreirais, D. Cristiane nos dizia e nos mostrava que ali estavam erguidas as quatro casas construídas de 1876 para cá: A primeira, de pedra – onde foi filmado parte de O quatrilho – a segunda, em madeira, que está sendo restaurada, a terceira, onde em seu porão funciona a cantina, e a quarta casa, mansão da família, construída recentemente com o intuito de sediar uma pousada.

Entre uma degustação e outra de salame, copa, queijo e licores, nossa querida ‘anfitriã’, ainda nos contava historinhas como a da eira, beira, tri eira. Dizia ela que antigamente, pelos idos de 1940, as casas possuíam no beirado dos telhados, eira, beira ou tri eira ou ‘nada disso’ e os jovens que desejavam se casar, antes de conhecerem a moça da casa olhavam primeiro para o beirado da construção; caso não tivesse eira nem beira,nem chegavam a falar com o pai da moça. Se a casa tivesse beira ou tri eira, se ‘encorajavam’ e falavam com o pai da pretendida. Verificando que sua casa possuía tri eira, arrisquei afirmar que para ela tinha sido ‘fácil’ arrumar um bom partido… A jovem senhora, entretanto, desconversou.

Perguntada, ainda, se nunca tivera vontade de se mudar para o outro lado da cidade – o glamoroso Vale dos Vinhedos – a senhora me explicou que ali seu Giovanni havia recebido – e pago – seu lote e que suas gerações ali se fixaram e procuraram fazer o ‘melhor possível’.

A conversa no porão da casa de 1940 continuava agradável, pois os produtos eram gostosos, as explicações francas, e a honestidade, trabalho e alegria estavam estampados na fronte daquela senhora, de uma quarta geração de imigrantes que chegaram àquelas terras em 1875.

Obrigado, D. Cristiane, por nos mostrar talvez e em minha opinião, o melhor lado de Bento Gonçalves.  Grazie di tutto e che il Padre celeste e Maria, Madre di Gesù a proteggerti sempre!

 

Fotos: 1. Giovani Valduga (Guia), D. Cristiane e Maria de Fátima; 2. Casa de Pedra; 3. Casa de madeira (em restauração); 4. Cantina (Casa de 1940); 5. Mansão (Pousada); e 6. Detalhe da ‘eira, beira e tri eira’ – (Final de uma primavera quente de 2012).

 

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