Archive for the ‘Passeios inesquecíveis’ Category

Quem chega à região de Bento Gonçalves, se depara com algumas curiosidades. Declino algumas, numa ordem que estabeleci – para mim – como importante:

1. Em repartições turísticas, em sua maioria exploradas por particulares, não se vê um único ‘palito de fósforo’ no chão. Na estação de Bento Gonçalves fui a um banheiro público – e químico – com um perfume de fazer inveja a todos os que já vi;

2. Qualquer espumante que se beba é ‘somente’ espumante… O da Peterlengo ganhou (judicialmente) o status de Champagne;

3. Nas primeiras fileiras dos vinhedos ainda se vêem roseiras. Hoje, somente decoração, já foram antigamente, um anúncio das predadoras formigas, pois estas antes de atacar os vinhedos, ‘atacavam’ as roseiras. Em muitos vinhedos ainda os potentes plátanos servem de sustentação aos vinhedos contra possíveis vendavais;

4. Muito comum nos passeios de Maria Fumaça, os artistas te tirarem para dançar;

5. Na vinícola Salton há uma Santa Ceia pintada com as faces de funcionários da vinícola. Ainda nessa vinícola os jardins são comparados, por exemplo, aos do Jardim Botânico de Curitiba;

6. A Igreja de Nossa Senhora das Neves, no Vale dos Vinhedos e inaugurada em 1907, durante forte seca, foi construída com a doação de 300 litros de vinho por família;

7. A primeira ponte, sobre o Rio das Antas, veio a baixo, fazendo algumas vítimas;

8. Em Caminhos de Pedra há umbus centenários que chegaram a abrigar em suas raízes, imigrantes recém chegados à região em 1875;

9. Na Casa da Ovelha, em Caminhos de Pedra há uma diversidade muito grande de produtos feitos a partir do leite de ovelha… Cada fêmea pode produzir até 4,5 litros de leite/dia;

10. Em Caminhos de Pedra, a Casa de Pedra da Cantina Strapazzon já serviu de cenário para algumas filmagens, entre elas “O quatrilho”. Nessa propriedade preservam-se as quatro moradias de seus donos;

11. Em Carlos Barbosa há, no Show Roon da Tramontina, um presépio feito a partir de resíduos inox (sucatas) de colheres, facas, garfos e outros produtos da empresa;

12. “Se o vinho atrapalha seus negócios, largue os negócios”… é só uma das curiosas frases dos corredores da Vinícola Aurora, maior do País e terceira do mundo; e

13. Guias das vinícolas, geralmente enólogas, poderão repedir o gesto de Napoleão Bonaparte, ao abrir um espumante com espada – sem fio – para isso apropriada.

Com estas curiosidades, encerro minha saga por essa bela região… OBRIGADO BENTO!

(Primavera quente de 2012). – Fotos: 1. Limpeza! 2. ‘Santa Ceia’; 3. Jardins da Salton; 4. Roseiras ‘contra formigas’; 5. Umbú centenário; 6. Frases da Aurora; e 7. Espada ‘à Napoleão’.

 

D. Cristiane já havia atendido a uma turma de turistas de fora do estado, mas sem sinais de cansaço nos recebeu, com sorriso largo e um ‘portuliano’ fluente e gracioso, na primeira casa, a de pedra, construída em 1876 por Giovanni Strapazzon. Entre uma degustação e outra de ótimos vinhos, sucos, grapas e licores – Amaretto, o melhor deles – a simpática senhora nos contava que ali foram filmadas cenas de O quatrilho e que tal evento impulsionaria a visitação à sua propriedade.

Num lote todo emoldurado por belos parreirais, D. Cristiane nos dizia e nos mostrava que ali estavam erguidas as quatro casas construídas de 1876 para cá: A primeira, de pedra – onde foi filmado parte de O quatrilho – a segunda, em madeira, que está sendo restaurada, a terceira, onde em seu porão funciona a cantina, e a quarta casa, mansão da família, construída recentemente com o intuito de sediar uma pousada.

Entre uma degustação e outra de salame, copa, queijo e licores, nossa querida ‘anfitriã’, ainda nos contava historinhas como a da eira, beira, tri eira. Dizia ela que antigamente, pelos idos de 1940, as casas possuíam no beirado dos telhados, eira, beira ou tri eira ou ‘nada disso’ e os jovens que desejavam se casar, antes de conhecerem a moça da casa olhavam primeiro para o beirado da construção; caso não tivesse eira nem beira,nem chegavam a falar com o pai da moça. Se a casa tivesse beira ou tri eira, se ‘encorajavam’ e falavam com o pai da pretendida. Verificando que sua casa possuía tri eira, arrisquei afirmar que para ela tinha sido ‘fácil’ arrumar um bom partido… A jovem senhora, entretanto, desconversou.

Perguntada, ainda, se nunca tivera vontade de se mudar para o outro lado da cidade – o glamoroso Vale dos Vinhedos – a senhora me explicou que ali seu Giovanni havia recebido – e pago – seu lote e que suas gerações ali se fixaram e procuraram fazer o ‘melhor possível’.

A conversa no porão da casa de 1940 continuava agradável, pois os produtos eram gostosos, as explicações francas, e a honestidade, trabalho e alegria estavam estampados na fronte daquela senhora, de uma quarta geração de imigrantes que chegaram àquelas terras em 1875.

Obrigado, D. Cristiane, por nos mostrar talvez e em minha opinião, o melhor lado de Bento Gonçalves.  Grazie di tutto e che il Padre celeste e Maria, Madre di Gesù a proteggerti sempre!

 

Fotos: 1. Giovani Valduga (Guia), D. Cristiane e Maria de Fátima; 2. Casa de Pedra; 3. Casa de madeira (em restauração); 4. Cantina (Casa de 1940); 5. Mansão (Pousada); e 6. Detalhe da ‘eira, beira e tri eira’ – (Final de uma primavera quente de 2012).

 

“Dentro das filosofias
dos Confúcios galponeiros,
domadores – carreteiros
que escutei nas noites frias,
acho que a fieira dos dias,
não vale a pena contar,
e – chego mesmo a pensar
olhando o brasedo perto,
que a vida é um crédito aberto
que é preciso utilizar!”

Disse-o bem – e os negritos são por minha conta – o poeta e payador Jayme Caetano Braun, Gonzagueano e missioneiro como Pedro Ortaça. Pois ‘apeei’ em São Luís quase que por acaso… Digo ‘quase’ porque desejava dar um ‘adeus’ e quem sabe tirar uma foto com o segundo, pois o primeiro só o veria ‘in memoriam’. Mas como o por acaso não existe, encontramos, minha velhinha e eu, uma cidade muito simpática: Com seus 34,5 mil habitantes, o município acolhe seus visitantes com um povo solícito, educado, interessado. Em Informações Turísticas o atendimento foi impecável por uma senhora que lá estava; o mesmo aconteceu no Pinheiro Machado e no MARO, dois museus, pequenos, porém muito bem organizados e retratando, de uma forma muito objetiva parte da história da cidade. No primeiro, a história do senador que morou naquela mesma casa e o busto do meu ‘amigo’ Jayme; no segundo peças de valor, algumas do tempo da redução, outras do outrora do município. O que deixou a desejar: O fato de certa autoridade do município, que agora não vem ao caso, ter mandado demolir o único resquício do tempo das missões, o Colégio Jesuíta da Redução de São Luís Gonzaga, que ficava justamente ao lado da atual igreja matriz que é em estilo gótico, muito bonita e muito bem cuidada. Se consegui falar com o outro meu amigo? Infelizmente não. Pedro, apesar de estar na cidade estava visitando um irmão. Certamente não houve o merecimento!

Os versos são um fragmento de Do tempo, de Jayme C. Braun. As fotos: 1. ‘Um dos amigos’ e este blogueiro; 2. A igreja matriz (Exterior); 3. A igreja matriz (Interior) – (Em 2 de dezembro, primavera de 2011).

São Miguel das Missões (San Miguel Arcanjo) – Se Cuzco é o ‘umbigo’ da civilização inca, São Miguel das Missões ou San Miguel Arcanjo o é dos Sete Povos da Nação Guarani aqui no solo gaúcho. Se, por um lado a população do município só tende a decrescer – o município já caiu dos 7,4 mil habitantes -, o que não decresce é a sua importância nas Reduções/Missões, visto ser o que apresenta a maior quantidade de resquícios arqueológicos.

As ruínas da Redução de San Miguel Arcanjo são imponentes. A Fonte Missioneira ainda tem muito a ser ‘descoberto’, mas a preservação de tudo isso deixa a desejar: Patrimônio de tal quilate, sob o zelo do IPHAN/UNESCO, deveria, segundo o termo que usei estar mais cuidado.

Quando disse que esperava pouco de Santo Ângelo, aqui o inverto: Esperava mais de São Miguel… Esperava encontrar menos resíduos, por exemplo – as frestas das pedras estão, lamentavelmente, cheias de tocos de cigarro, papéis de balas; andaimes estão abandonados -. O novo deveria estar ao lado do velho… Explico: Se o povo de São Miguel não precisasse ir a Santo Ângelo adquirir suas necessidades básicas, o município não estaria decrescendo. O moderno e o preservado precisariam caminhar juntos, o que acontece em outros municípios dos Sete Povos.

Não posso, entretanto, subestimar a potência turística de São Miguel… Só acho que poderiam acontecer alguns ajustes: Hotéis, comércio, pousadas, cuidados, preservação…

O espetáculo de Som e Luz é algo grandioso, mas poderia ser menos evocativo (Dentro da Doutrina Espírita, algo relativo ao sossego dos Espíritos dos ancestrais ali evocados).

A grande quantidade de peças repatriadas foi um esforço de abnegados trabalhadores, como o pai de seu Carlos e o próprio (vide matérias anteriores), que conseguiram fazer retornar ao local peças que haviam sido saqueadas por ocasião do abandono da Redução.

Julgo que São Miguel tem jeito ou precisará tê-lo, caso contrário será um município de fantasmas: Somente os espíritos evocados ali permanecerão, ou… Nem haverá alguém para evocá-los!

 

 

 

 

 

 

(Fotos: 1. e 3., minha velhinha e eu; 2. imagens em madeira, ‘repatriadas’ –  1º de dezembro, primavera de 2011).

Santo Ângelo (San Angel Custodio)Quando parti rumo à Região das Missões, não esperava muito de Santo Ângelo… Na manhã do dia 1º de dezembro partimos minha velhinha, a guia dona Vera e eu rumo ao município distante, aproximadamente, 60 km da base São Miguel.  Santo Ângelo, a ‘Capital das Missões’ possui pouco mais de  76 mil habitantes e uma universidade com extensões pela região. Impressionou-me, sobremaneira, o conjunto catedral, praça, museu a céu aberto e o museu contíguo à praça. Única nos sete povos com sua frente não voltada para o norte, a igreja já está no seu terceiro ciclo, ou seja, depois da original, ao tempo da redução – século XVIII -, já houve outra, a dos imigrantes, no século XIX e esta, magnífica, é a atual, construída na sua base em arenito – essa pedra rosada – e, nas demais reformas, com alvenaria ‘imitando’ aquela pedra (Fotos 1 e  2). A praça, dividida bem ao meio, representa, à sua esquerda o passado e, à sua direita, o presente; ao centro existe um pórtico com trinta arcos, representando os 30 povos das missões (distribuídos no Rio Grande do Sul-Brasil, Paraguai e Argentina – Fotos 3 e 4). A cada escavação que ia sendo feita e ao serem descobertos vestígios, estes eram preservados e cuidadosamente envidraçados compondo-se Janelas Arqueológicas, facilitando a visitação e o entendimento das ruínas; montava-se, aí, o museu a céu aberto (Foto 5). O museu, contíguo à praça, revela peças raríssimas tanto da redução como do dia-a-dia do povo do município (Foto 6). Outra particularidade do município é, ainda, o fato de, nos idos de 30 ter sediado o início da partida da coluna Prestes em direção ao norte do País. Possui um pequeno, mas não menos interessante museu ferroviário com peças raríssimas. (Dia 2 de dezembro, primavera de 2011).

‘Seu’ Carlos, patrimônio dentro do patrimônio – Conheci hoje o ‘seu Carlos’. Na chegada a São Miguel das Missões, deparei-me com um povo meio fechado – esperava o contrário -. ‘Seu Carlos’, entretanto, um vendedor de artesanato localizado exatamente à frente da igreja de São Miguel – ou Sítio Arqueológico -, não proporcionou a mim e à minha velhinha uma aula de história, ‘seu Carlos’ é a própria história. Comecei comendo-o pelas beiras com a pergunta: E daí vizinho – pois ainda não sabia o seu nome -, quem teve razão, o índio, o jesuíta, o português ou o espanhol? ‘Seu Carlos’ desconversou; em contrapartida contou-me uma história muito mais bonita: Criara-se dentro da igreja, pois seu pai era integrante de uma equipe que, lá pelos idos de 1937 iniciaria o restauro do Sítio e o entregaria ao zelo da UNESCO/IPHAN. Desta forma, o humilde senhor daquela época para cá, entregar-se-ia, juntamente com o pai a tão nobre missão. Hoje com 75 anos conta histórias para os filhos, netos e… Para os curiosos como eu. Quase esqueço: ‘Seu Carlos’, viúvo há 11, todo fagueiro, disse-me que casará, novamente, na próxima sexta feira, dia 2 de dezembro. Se comprei artesanato de ‘seu Carlos’? A velhinha saiu atopetada!

Foto: Esta tomada é sempre obrigatória…(30 de novembro, chegada a São Miguel das Missões, segundo dia do passeio – Primavera de 2011).

Saqsaywaman, Tambomachay, Ollantaytambo e Macchu Pichu, nomezinhos difíceis, mas com significados. Todos no Peru, o primeiro, ruínas de um templo dedicado ao deus raio; o segundo, dedicado às águas; o terceiro e o quarto, reverências a montanhas sagradas. Aprendi, desde o tempo de escola que meus ‘ancestrais’ eram politeístas: Possuíam tal comportamento religioso os guaranis, do oeste de meu estado gaúcho – esses meus ancestrais legítimos, mesmo -, ainda os guaranis em Missiones, na Argentina, os do império Inca, em quase toda a Cordilheira Andina, Os Astecas, os Maias… Tal comportamento preocupava nossos queridos jesuítas, dominicanos e religiosos de outras ordens, todos ansiosos em torná-los monoteístas. Mas será que esses povos – que, na maioria tiveram seu apogeu lá por 1500 e aqui me refiro ao povo inca – eram mesmo politeístas ou naturalistas? Sim, porque, se vivendo numa região extremamente árida como a de Cuzco, logo após perceberem o raio, ouviam logo o trovão e após este vinha a chuva tão benfazeja e necessária; as montanhas eram contrafortes naturais que os protegiam de ataques diversos. Todos estes fenômenos, encarados com naturalidade não estariam fazendo parte da Providência de um só Deus? De um Deus que deles tomava conta através de seus fenômenos naturais? Encantei-me e aprendi demais em uma semana no Peru. Cuzco possui mais de uma igreja em cada quadra, todas museus, abertas à visitação paga, mas o povo peruano rural, principalmente o que mora nas montanhas, continua reverenciando e se beneficiando destes aspectos naturais, falando o kechua e realizando suas oferendas para que não lhes falte a chuva, para que as fontes lhes irriguem maizes e papas e para que a montanha seja o seu porto seguro. (Fotos, Nov 2010: 1. Saqsaywaman; 2. Tambomachay; 3. Ollamtaytambo; 4. Macchu Pichu) – (Primavera ventosa de 2011).

 Localizado no Parque Nacional de Aparados da Serra, o Itaimbezinho é o mais charmoso dos cinco grandes cânions do Parque. Sedia-se no tranqüilo município de Cambará do Sul-RS, distante 200 km da capital gaúcha. Visitar Cambará e seus cânions e não visitar o Itaimbezinho seria como… Ir a Roma e não ver o papa, ir ao Peru e não sentir Machu Picchu, ir a Paris e não escalar a torre Eiffel. De mais a mais, de todos os cânions é o mais acessível à terceira idade, visto que a trilha maior – nem é trilha, é uma estrada de chão – possui apenas 3 km e a outra menor até calçada é. Cambará e todos os seus aspectos naturais, respiram energia pura. Ao invés das praias, e até por ser local muito frio – registra as mínimas do estado, quase sempre – os hotéis e pousadas da cidade são equipados com lareiras e lençóis térmicos. Passeio ideal para o inverno. O lugar impressionou demais à minha velhinha e a mim. (Na foto, ‘minha’ velhinha, Nov 2009) – (Primavera ventosa de 2011).