Há exatos 529 anos, Tomás de Torquemada, um frade da ordem dos dominicanos, era nomeado pelo Papa Sixto IV, inquisidor-geral de Espanha. O assombroso número de 2.200 autos-de-fé foi promovido por este inquisidor. Um auto-de-fé compreendia castigos a ditos hereges judeus e muçulmanos e poderia constar de um simples desfile com o tabardo – túnica usada por campesinos – até a imolação na fogueira.

É exatamente sobre este inquisidor que Carlos Baccelli e Dr. Inácio Ferreira se reportam na obra Sob as cinzas do tempo. Em período de férias – que luxo, férias de aposentado! – me aplico em ler um ou dois romances… Pois este valeu à pena cada página. Personagens importantes como Maria Modesto Cravo, Inácio Ferreira, Manoel Roberto, Bittencourt Sampaio, Dr. Odilon Fernandes, Chico Xavier, Dr. Bezerra de Menezes,  D. Querubina – benzedeira – e o próprio Torquemada estão incluídos na saga em apreço.

Encanta-me a honestidade, a franqueza e até a exposição de nosso querido autor espiritual. Separei alguns fragmentos, a título de tira gosto, de passagens até hilárias de Dr. Inácio Ferreira, quando à frente de seu Hospital Psiquiátrico em Uberaba. Divirtam-se!

  • “… Eu era muito mais um espírita médico do que um médico espírita…” (pg. 76);
  • “O segredo para combater a depressão era não perder o senso de humor – eu galhofava o dia inteiro -. Curei muitos perturbados, mostrando-me mais perturbado que eles.” (pg. 95);
  • “… O apoio da família na recuperação de um doente psiquiátrico deveria ser um capítulo à parte na medicina.” (pg. 116);
  • “No espiritismo quem não foi padre ou freira, foi francês…” (pg. 135);
  • “Como dizia minha tataravó: ‘viúvo é quem morre’… Sempre fui contra… esse negócio de luto eterno… Senhoras, ainda jovens, trajadas de negro cultuando uma saudade de maridos que, com certeza, deveriam estar aprontando no Além – vivos ou mortos, os homens eram sempre os mesmos…” (pg. 204);
  • “Chegaram trazendo ovos e queijos e para mim, em especial, um rolo de fumo de corda tal, que, para qualquer outro fumante inveterado, daria para fumar uma vida inteira, mas para mim não.” (pg. 228);
  • “Lamento os companheiros médicos – lamento profundamente – que memorizam certos medicamentos e se põem a exercer a psiquiatria com uma caneta e um bloco…” (pg. 241).

Como vemos Dr. Inácio está aqui, também nesta obra exposto, fumante inveterado, encrenqueiro, mas realizando todo o bem possível; brabo, mas também bravo e misericordioso…

Quanto ao final… Leiam o romance: Forte, emocionante, surpreendente!

(Verão de 2011/12).

One comentário para “Cinco séculos “sob as cinzas do tempo””

  • Fernanda says:

    “O segredo para combater a depressão era não perder o senso de humor – eu galhofava o dia inteiro -. Curei muitos perturbados, mostrando-me mais perturbado que eles.” (pg. 95); Dr. Inácio, mais maluco impossível. Adoro sua teoria da vassoura!!
    Esse livro é fantástico, eu adoro, como gosto de todos os outros do nosso querido doutor Inácio.
    Gosto porque ele é franco, algumas vezes até demais. Consegue ser ao mesmo tempo sério, brilhante e hilário!!

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