“… Porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão.” (Lucas, VI, 36).

No segundo piso de sua confortável casa, junto a envidraçada porta sacada, o ‘cinqüentão’ sentava-se todas as manhãs para ler o jornal e outras obras de seu gosto. Distraía-se, entretanto, freqüentemente olhando a vizinha estender roupas no varal e comentava com a esposa: ‘Mulher, verifica como as roupas de nossa vizinha são encardidas… ’ Sua mulher nunca respondia nada. Repetidas vezes emitiu o homem tal comentário, até o dia em que, surpreso, exclamou à esposa que fazia sua lida: ‘Mulher, milagre! As roupas do varal da vizinha hoje branquearam!’ Calmamente a esposa lhe explica que as roupas da vizinha sempre estiveram brancas; é que na véspera a empregada havia limpado os vidros de sua aconchegante vidraça que há tempos estavam sujos… (Conto popular).

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Os indivíduos enxergam e julgam as coisas exatamente como desejam. É possível que o colorido ou o preto e branco das coisas que eu veja sejam exatamente consoante a cor de meus olhos. É possível, também que eu ‘deseje’ ver coisas encardidas, a despeito de todo o colorido que há lá fora: Como o personagem da fictícia história que jurava estarem sujas as roupas que a vizinha estendia no varal.

  • Manter a concentração naquela tarefa que realizo, seja ela braçal, intelectual, de pesquisa ou contemplativa;
  • Analisar minhas condutas diárias e os atos que passarão a me definir;
  • Vigiar meus pensamentos a respeito dos outros e pareceres que poderei emitir sobre suas pessoas;
  • Relacionar meus pontos fracos, as faltas nas quais incorro seguidamente e a imperfeição de meus sentimentos; e
  • Tornar-me o guardião tão somente de ‘meus’ sentimentos, procederes, avaliações; controlar o livro caixa de minha vida, verificando seus débitos/créditos e ser o investigador apenas de mim…

… É não correr o risco de ser medido “com a mesma medida”. Indivíduos administram dificuldades diferentes e as facilidades não são comuns a todas as pessoas. Patamares evolucionais se encontram em degraus diversos. Dores e aflições, sanidades ou insanidades físicas e mentais, facilidades, aptidões, destrezas, dificuldades, apuros e estorvos… são características de foro íntimo de cada irmão. Pessoas há que perseguem e colecionam a isenção e a independência de caráter; há pessoas que ainda tem dificuldade nessa tarefa!

Melhor do que julgar o próximo é entendê-lo e admitir que suas ainda dificuldades possam ser incomensuráveis, visto que os apuros pelos quais o vejo passar poderão representar apenas uma pequena quota das reais aflições que em silêncio ele administra. Espíritos, por serem ímpares, são também detentores de suas particulares dificuldades. A primeira proposta será eu administrar as ‘minhas’ dificuldades para, posteriormente, e se me for possível, interferir caridosamente no auxílio a terceiros.

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Para que não ocorra o inverso ou que a vizinha enquanto estende roupa em seu varal não venha a enxergar as ‘distorções’ de minha vida, e venha a me avaliar “com a mesma medida”, é necessário que eu esteja com minha ‘vidraça’ límpida, isenta e transparente…

(Sintonia: Cap. Não julgues teu irmão, pg. 133 de Meditações Diárias, de André Luiz/Chico Xavier, editora IDE) – (Inverno de 2013).

3 Comentários para ““Com a mesma medida””

  • Gostei muito desta crônica, principalmente pelas dicas no meio do texto, e na sugestão da auto avaliação. Porque geralmente fazemos avaliações precipitadas sobre pessoas ou coisas, e o melhor é com a alteridade relativizar tudo, e olhar o outro a partir do outro e não a partir da nossa cultura.

    Abraços,

  • Silvia Gomes says:

    “Tornar-me o guardião tão somente de ‘meus’ sentimentos, procederes, avaliações; controlar o livro caixa de minha vida, verificando seus débitos/créditos e ser o investigador apenas de mim…”

    Imperfeitos que somos; esta talvez seja a missão mais difícil de cumprir, pois é muito mais fácil dar pitaco na vida dos outros do que corrigir nossos próprios erros e defeitos.
    Belo texto Claudio! Obrigado mais uma vez e bom retorno!

    • Velhinho says:

      Este ainda era um post antigo, querida Silvia… Tenho uns quatro que preparei na ‘entresafra’ Rio Grande-Pelotas, mas ainda não os publiquei. Penso, no momento, e montar nosso pequeno escritório. Mas teu incentivo me impulsiona, certamente. Obrigado, Claudio.

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