Não sei com qual das mãos meu querido amigo Dr. Bezerra manuseava o bisturi, se usava luvas de borracha – de boxe é que não era -, mas o certo é que me senti tomando um ‘cruzado de direita’ ao ler hoje uma de suas recomendações: “Eles – os meus irmãos – o enxergam mais do que a nós [desencarnados], eles o escutam mais do que imagina, e eles se converterão aos seus testemunhos de amor e abnegação muito mais do que pela eloqüência das suas palavras”.

Desejava o doutor com essa expressão, me falar de vestígios – pegadas, sinais, testemunhos. Vestígios de que natureza eu tenho espalhado por aí ao longo de minha oportunidade reencarnatória? Serão minhas pegadas semelhantes às do Cristo, prático, oportuno, serviçal, abnegado, ou somente alguns teóricos sinais?

Não posso, de forma nenhuma, com a eloqüência de minhas palavras, negar aos meus irmãos que existe, sim, uma Hierarquia Espiritual amorosa e que a ela eles deverão se dirigir… Mas o que esses queridos necessitados desejarão ver de pronto, de encarnado para encarnado, será a minha abnegação…

Se com minhas palavras eu lhes ensinar que há uma luz no final do túnel eles desejarão que os tome pela mão e lhes mostre a entrada desse túnel que sequer conseguem identificar.

Em determinadas situações desejarão mais o toque de minhas mãos do que o verbo de meus lábios.

Talvez depois que estiverem com suas necessidades básicas materiais satisfeitas, possam assimilar as verdades que eu lhes falar sobre o Evangelho e de um Jesus Cristo que não é uma lenda.

Todas as minhas ações concretas em suas direções, não serão nenhum favor a eles, mas a mim mesmo, na forma de santo ‘pagamento’ pelas pregressas vezes que os lesei.

Pergunto-me, onde estão esses necessitados para com os quais tenho tantas dívidas, e o eco de minha consciência – meu semáforo regulador – me retumbará que não precisarei fazer muito esforço para enxergá-los, pois eles estarão batendo no meu portão, tocando minha campainha, entrando pelas ondas de meu celular, pelo fio de meu residencial, pela conexão de minha internet… Quem sabe passando trôpegos pela frente de minha casa onde estarei acomodado, cultuando meus vícios…

Minha consciência, então, gritará a meus ouvidos moucos para eu levantar de minha espreguiçadeira, largar de meu chimarrão ou, quem sabe, até de meu Evangelho ou da teórica leitura que me atrai…

Estarão todos, quem sabe, enfileirados na minha porta, como os desgraçados do SUS, mendigando favores sobre os quais possuem amplos direitos.

Seus rostos contraídos gritarão em silêncio me pedindo que me levante das olimpíadas, do futebol, do carnaval, da copa, do Facebook, pois todos estarão com a ficha um de suas necessidades à mão.

E quando chegar a minha ‘hora’… talvez muitos deles estejam ‘lá’ e tais quais mediadores revelem ao Divino Porteiro da Porta Estreita que eu os atendi não com o Evangelho nas mãos, mas com as mangas arregaçadas e com as mãos servidas…

Quantas páginas precisarei ainda escrever com meus exemplos a fim de que substituam todas as teóricas que preenchi com lápis, caneta, Word?…

Se Jesus é a videira e eu apenas um de seus ramos, será necessário que eu vingue, brote, floresça, frutifique e ainda forneça minha sombra aos cansados de jornadas áridas.

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Abra o seu coração, pg. 128 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

3 Comentários para “Cruzado de direita”

  • Fernanda says:

    Meu amigo, com a touca até o pescoço, confesso que em meu egoísmo eu muitas vezes me pego a lamentar o fato de ter de sair de minhas teorias e colocar a mão na massa…
    Me paro a julgar que o outro encontra-se em determinada condição por suas própria incúria, julgamento que não me cabe, espírito igualmente desgraçado que sou, ao invés de estender a mão e auxiliar sem nada, nada indagar…
    O quão longe me encontro ainda dos abnegados servidores do senhor que conseguem olhar o necessitado como irmão e estender-lhes a mão sem a preguiça e o orgulho, sem o julgamento mesmo que por pensamento, sem a cara de desagrado que o egoísmo ainda deixa transparecer em mim.

  • Luiz Paulo says:

    Pois é meu amigo. A oportunidadeé para que todos nós aprendamos, rapidamente, paara logo colocar em execução. abrs

  • Silvia Gomes says:

    Verdade amigo! Quantas oportunidades jogamos fora por preguiça de praticar aquilo que tanto teorizamos.
    Lentidão em mandarmos embora nosso orgulho e nossa soberba, que nos faz julgar o outro pelas aparências, que nos faz não perceber que cada um de nós tem sua história e que não devemos julgar pela nossa teoria, pois não sabemos os motivos que cada um tem pra estar em necessidade, seja material ou espiritual. Mas sempre é tempo!
    Reconhecer que praticamos pouco já é um começo, deve nos incomodar e impulsionar para o trabalho. Reconhecer que num dia estamos bem e em condições de auxiliar, que noutro estaremos na condição de necessitados e que nem em uma, nem em outra nos é lícito abdicar da prática e do aprendizado.
    Obrigado mais uma vez e parabéns pelo belo texto! Abraço fraterno!

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