santa-maria

Visivelmente abatido, cansado e emocionado, às 00:30h de hoje, 28 de janeiro, um major da Brigada Militar, já com seus cabelos embranquecidos, dava uma entrevista a uma não menos consternada repórter e apresentadora da RBS. Dizia o militar que ali estava, no Centro Poliesportivo de Santa Maria, fazia quase vinte e quatro horas; que possuía duas jovens filhas e que as havia desaconselhado, como pai, de irem à boate Kiss, na noite anterior. Externava, ainda, à repórter, que ‘estava ali exercendo sua profissão e que, apesar da consternação geral que se abatia sobre as diversas equipes que atendiam as também diversas fases, precisava ser frio e tocar o trabalho das equipes que lhe competiam’. Ao final da entrevista, visivelmente comovidos os dois, a repórter aconselhou-o a ir para casa, descansar e abraçar suas filhas que, atendendo-o, teriam deixado de ir à boate…

* * *

“Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer produzirá muito fruto. Quem ama sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna” – (João, 12: 24 e 25).

“Homens que vivem na reclusão absoluta para fugir ao contato do mundo [deixam de] fazer mais de bem do que se faz de mal, visto [esquecerem] a lei de amor e de caridade” (Questão 770 de O livro dos Espíritos).

O episódio primeiro, a exortação de Jesus através de João e a questão 770 me conduzem a realizar algumas considerações sobre a tragédia que se abateu sobre Santa Maria, Brasil e o mundo:DESAPEGO

  • Se o major não houvesse germinado, crescido sobre o altruísmo, aquela população de profissionais e voluntários, – mais ou menos quinhentos no Poliesportivo – vítimas em triagem e familiares, não estariam colhendo os frutos de sua generosa vocação;
  • As sementes somente germinam, crescem e principalmente frutificam quando inseridas em sociedade e desapegadas de seu comodismo, ou fora de seu desapego defensivo – clausura, isolamento, contemplação… Instalam em si, com esse processo, o desapego saudável;
  • Num primeiro momento em que se discutem soluções e medidas a tomar, partindo-se do pressuposto que a tragédia teria sido mais negligência do que acidente, não se pode ignorar que essa prevenção começa em casa: Minha filha ao ser recomendada da inconveniência de ir à ‘balada’ em determinado ambiente, poderá me retrucar, ‘sai, velho! – ou coroa – Não entendes nada de night!’ Mas também poderá agir da forma que agiram as filhas do major em questão;
  • O contato do mundo, deste mundo de Provas e Expiações, é lógico que ainda não é o desejado, pois sua ‘promoção’ ainda está por vir. Cabe-me, e a todos, a missão de fazer mais de bem do que se faz de mal. Enquanto isto não acontecer, Planeta e planetários ainda estarão susceptíveis a ‘necessárias’ catástrofes como esta;
  • Há, pois, um aviso mais ou menos velado da Divindade nestes episódios que parecem lamentáveis, porém educativos: Enquanto leis humanas não se adequarem ou forem consoantes às Divinas e o zelo de pais terrenos, das autoridades e o próprio zelo de cada um forem um arremedo do Divino Zelo, de nada adiantará a solicitude da Divina Providência;
  • O indivíduo que ama por inteiro, aquele que não esquece a lei de amor e de caridade, agirá com coerência em todos os segmentos em que atuar, – família, profissão, sociedade… – até na hora de dizer um ‘não’ ao seu adolescente/jovem: ‘Não, meu filho! Em nome do amor, de tua preservação e por minha ainda gerência sobre ti, isto não te convém!’ e
  • Importar-se, – do latim importare ou trazer para dentro – sempre será o legítimo desapego saudável ou aquele que praticarei entendendo que a sociedade isso me impõe. Numa cômoda defensiva como me importaria? Do menor núcleo, a família, às responsabilidades mais amplas e complexas das autoridades, importar-se por cumprimento e fiscalização de regras, poderá poupar inúmeras vidas.

* * *

Fechar as cortinas da janela de minha alma, ficando à deriva de uma sociedade que me compete, enclausurado, por exemplo, não é nenhum tipo de desapego; este, de cunho estritamente moral, só será verdadeiro quando germinar, crescer e frutificar.

As boas conquistas de minha alma serão os únicos bens que transportarei para a Vida: Diretamente proporcionais ao desapego saudável elas sempre serão inversas ao desapego defensivo, o da clausura.

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Desapego, pag. 25 de Os prazeres da alma, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Boa Nova) – (Verão de 2013; dia D+1 da tragédia de Santa Maria).

One comentário para “Germinar, crescer e frutificar”

  • Silvia Gomes says:

    Verdade Claudio! Aquela velha máxima: “Quem ama cuida”, anda um pouco esquecida. Mas nem tudo está perdido ainda temos tempo para fazer germinar, crescer e frutificar o amor e a fraternidade e assim cuidarmos com mais zelo e carinho do nosso bem maior que é a Vida.
    Tomara que estas perdas não sejam em vão e possamos aprender com mais essa dor, já que resistimos em aprender através do amor.
    Bela crônica! Mais uma vez obrigado pelos ensinamentos. Abraços fraternos!

Deixe um comentário