Como tantos outros instrumentos, utensílios, documentos, que passam no decorrer da história por aperfeiçoamentos, tive minha primeira versão lá pelos idos de 1300 anos a.C.

Foi bem ao tempo do êxodo, justo pela permissividade dos viajores hebreus que saíam do exílio Egípcio rumo à Pátria Prometida de Canaã. Escrito em duas páginas ou tábuas de pedra, eu ditava regras de ‘bons modos’ para com Deus e para os homens entre si, que os orientaria em sua saga.

Ante o bezerro de ouro erigido no deserto, os murmúrios de desconfianças, as contendas fratricidas, os adultérios… obriguei-me a estabelecer um código de bons procederes para que os afoitos viajantes norteassem seus deveres.

Dessa forma, lá estavam prescritos em minhas duas páginas e esculpidos em números romanos todos os dez bons procederes… Iniciavam com os deveres para com Deus, passavam por não roubar e não matar e culminavam com não cobiçar as coisas alheias. Oferecia-lhes, assim, meu passaporte para uma feliz chegada à Pátria Prometida.

É bem verdade que o grande psicógrafo de minhas laudas, Moisés, não chegou à Terra Prometida, mas sua descendência, sim, e considero-me um privilegiado de lhes ter servido de ponte para uma viagem de quarenta anos.

* * *

Passados pouco mais de treze séculos, um Jovem Messias, doce como um favo de mel, e fiel depositário dos anseios do Criador para com suas criaturas, resolveu dar-me uma nova roupagem… Lembram quando disse que os utensílios evoluem com passar dos tempos? Pois bem, o Divino Rabi resolveu reformular-me, simplificando meu decálogo para somente dois mandamentos.

Reduzindo-me a quatro ou cinco linhas, o Sábio Nazareno recomendava-me que para ser eficiente junto aos viandantes, eu deveria prescrever que os homens amassem a Deus e se amassem! É, meu amigo, simplesmente se amassem, se é que amar é simples! Em se amando, como gostariam de ser amados, pressupostamente não estariam cometendo despautérios, cumpririam o decálogo mosaico e estariam amando a Deus.

Sábio o Rabi que me deixou mais compacto. Após advertir-me que não tinha vindo para tirar-me a autoridade que sempre tive, ou que não viera revogar a Lei, mas dar-me um ‘lustro’ novo, meu Divino Designer retornou precocemente à ‘sua Canaã’, pois ninguém melhor do que Ele cumpriu à risca meus códigos, sem retirar-lhe uma única vírgula, um único ‘iota’ ou um só til.

E eu? Bem eu vou monologando contigo, continuando minha peregrinação, e servindo aos de boa vontade que desejam Viagens Superiores…

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Em meados do século XIX, os abusos contra meus preceitos, haviam chegado ao ápice ou à ‘corte’, tiara, cúpula. Confundiram tudo os ditos dignitários e depositários dos suaves conselhos em mim retocados e simplificados pelo Mestre. Rebaixaram meus viajores a andarilhos, bruxos, heréticos e apóstatas submetendo-os aos humilhantes autos-de-fé a serviço da santa inquisição… Viajava com eles e não os via bruxos, mas videntes de boas causas; nem eram apóstatas, mas os que desejavam uma fé raciocinada; e tão pouco eram heréticos, mas samaritanos…

Tais heróis, ante a covardia do clero não precisaram nem deste passaporte – ou precisaram? – para iniciarem uma viagem que passaria pelos mais humilhantes ultrajes e culminaria no apocalipse de seus holocaustos.

Com um basta, Hippolyte Léon Denizard Rivail, professor Rivail, ou ao ‘simplificar-se’ para Allan Kardec, também simplificou o que já era simples, pois de dois mandamentos, o ‘gráfico’ de Lion imprimiria neste passaporte que te fala: “Fora da caridade não há salvação”. Volto a lhes afirmar, meus amigos, se os objetos evoluem com o transcurso dos tempos esta foi a evolução mais simplificada que eu receberia…

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O que mais faltaria a este viajor te falar para proveito de tuas andanças e evoluções? Quando tudo já foi simplificado e dito, de Moisés a Kardec, talvez desejasse concluir com o que há de mais difícil neste Código de Passaporte à Canaã Espiritual; coisas que o Mestre já falou, mas que sempre é bom lembrar: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aqueles que vos odeiam e orai por aqueles que vos perseguem”. Ou, tornando fácil o difícil… Fora do perdão não há salvação!

À tua disposição… Apanha-me e viaja!

(Inverno de 2012).

2 Comentários para “O passaporte”

  • Silvia Gomes says:

    Ou seja: ” Ama quem não te ama… pois ele precisa aprender a amar, ama quem ainda não sabe amar…porque não há outra maneira de encontrarmos a paz e a tão sonhada ” Felicidade”! O passaporte é o Amor! Lindo texto Claudio! Obrigado! Um grande abraço!

  • Diego Diaz says:

    Parabéns pelo texto Claudio !
    Muito reflexivo e verdadeiro….
    Abraço para ti, e para a Maria…

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