1234160460066_f

Meu orgulho mora na torre mais alta do castelo de minha vida;

Particularmente, tenho muita dificuldade em administrar e compreender o orgulho dos outros, pois o meu não permite;

Meu orgulho, em mirante espetacular só olha de cima para baixo e vê coisas e seres pequenos, insignificantes;

Meu orgulho possui um irmão gêmeo – chamado egoísmo – que mora com ele em seu prazeroso castelo;

Meu orgulho está sempre acompanhado da donzela vaidade que, caprichosa, sempre influi em suas atitudes;

Meu orgulho possui também outras companhias: A arrogância é uma balzaquiana que não se dobra; a soberba é quase sua irmã ou ao menos em muito se lhe parece. Há ainda outras jovens ou nem tanto que compõem o seu séqüito, como a presunção que lhe toma conta da agenda, o controlador na ‘pasta’ da hipocrisia e o perfeccionista ‘quase’ pudico;

Nas cercanias do castelo de meu orgulho – num ‘ladeirão’ – há um vilarejo onde moram personagens humildes e fraternos; meu orgulho não se relaciona muito bem com essa ‘estranha’ vizinhança;

Meu orgulho dita normas de bem proceder que, na verdade, só não conseguem normatizar a sua vida;

Meu orgulho tem carro bom e quase que intocável… Não é desses utilitários que carregam pessoas necessitadas por ruas esburacadas a qualquer hora da noite; ‘ambulância’, nem pensar!

Meu orgulho doutor em regras de trânsito é, na maioria das vezes, inflexível, não admitindo exceções tão pouco falhas alheias;

Meu orgulho quando confronta guardadores, catadores, frentistas, lavadores… Os considera todos subempregados e servis acomodados… Moedas para eles só as pequeninas; a que possui a ‘República na cara’, nem pensar! Uma palavra boa é perda de tempo com esses ‘vadios’.

Amigos queridos, se passarmos os olhos nas constatações da crônica acima – e lhes pedimos que o façam com naturalidade -, certamente nos identificaremos em mais de um item. O meu orgulho ou o nosso orgulho não é coisa de hoje e sua comitiva o acompanha ao longo de nossas diversas encarnações.kjdfgh

“Todos (os espíritos inferiores e imperfeitos) têm deveres a cumprir. Para a construção de um edifício não concorre o último dos serventes de pedreiro, como o arquiteto?” nos responde de forma categórica a questão 559 de O livro dos Espíritos. Todos, de pequenos, médios e grandes talentos, somos responsáveis pela melhoria do Planeta, mas somente a humildade nos fará perceber este poder de transformação. A humildade e a disponibilidade de nossas habilidades, nesse caso, deverá ser tal qual o farol que iluminará a caminhada de nossos parceiros, porém o roteiro será, inevitavelmente, traçado por cada um.

Em uma unidade de saúde há diagnósticos clínicos ou geriátricos que só terão total sucesso com o concurso da fisioterapeuta, anônima e muitas vezes relegada ao segundo escalão do posto médico; e o fracasso do cirurgião experiente se faria se os instrumentos não estivessem religiosamente esterilizados.

É mais construtiva a humilde colaboração dos pequenos empreendedores do que a empáfia dos grandes gênios.

As pessoas humildes chegam à nossa praia e vão logo nos convidando para jantar; os abonados chegam à orla já comendo o nosso lanche.

Quando abordam o tema Orgulho, à pg. 31 de As dores da Alma, Francisco do Espírito Santo Neto/Hammed dizem que “nosso orgulho quer transformar-nos em ‘super-homens’, fazendo-nos sentir ‘heroicamente estressados’, induzindo-nos a ser cuidadores e juízes dos métodos de evolução da Vida Excelsa e, com arrogância, nomear os outros como desprezíveis, ociosos, improdutivos e inúteis.” Ou seja, o nosso orgulho do alto de sua torre, nada construirá, pois só verá o que lhe convém. Julgará, mancomunado com seu séqüito, que todo aquele Zé povinho do ladeirão, nenhuma utilidade tem para o paço em que pensa reinar.

Perguntamo-nos, então, como encaixar “o último dos serventes” nessa corte tão perversa? Todos nós sabemos que o contrário é mais salutar: Depor o monarca!

(Verão de 2011/12) – Pub O Clarim Jun 2013.

5 Comentários para ““O último dos serventes” na corte do orgulho”

  • Fernanda Geri says:

    Que bela crônica Claudio!! Confesso que ria ao lê-la. Mas ria de mim mesma, porque o tempo todo me via ali estampada, exposta!! É isso, somo assim, sou assim, que feio né? Mas é a nossa verdade! Muito obrigada por mostrá-la, por expô-las assim tão explicitamente! Precisamos desses puxões de orelha. Obrigada!

  • Velhinho says:

    Obrigado, Fernanda por teu retorno… Reverencio-te e te abraço fraternalmente. Claudio, ou gostaria de me chamar “o último dos serventes”. Que Deus te abençoe!

  • Silvia Gomes says:

    Belo texto Claudio! Bem assim! Nos achamos mesmo detentores de todo o conhecimento e moral da galáxia e os outros… Ah! Os outros não sabem nada! Que ilusão a nossa! Quando vamos sair do nosso castelo e viver a vida real?
    Obrigado amigo pelo puxão de orelhas! De vez em quando é preciso!

    Abraços fraternos!

  • Elci Senna Mano says:

    Muito bom, Claudio! Para se ler, reler e refletir muito. Acho que não tem como não nos enquadrarmos em uma ou mais situações. Só podemos concluir que temos uma escada com muitos degraus no nosso processo evolutivo. Muitos mesmo…

  • ROSANA says:

    ENQUANTO OUVIA VOCÊ FALAR, ME SENTIA A PRÓPRIA DONA DA TORRE, E O MEDO TOMAVA CONTA DE MIM; TINHA O CONCEITO ERRADO DO ORGULHO, PARECIA-ME QUE SER ORGULHOSA ERA POSITIVO, SIGNIFICAVA PARA MIM QUE TUDO EU CONSEGUIRIA RESOLVER SOZINHA, SABE; AQUELE PENSAMENTO: DEIXA QUE “EU”…. NÃO TENHO PALAVRAS PARA EXPLICAR COMO ME SENTI, MAS MUITO TENHO À CORRIGIR E ME POLICIAR,MAS OBRIGADA PELO PUXÃO DE ORELHAS, PROFESSOR, EU VI O DEGRAU AGORA VOU LUTAR PARA PÔR O PÉ NELE, UM ABRAÇO.

Deixe um comentário