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Com o braço leve sobre meu ombro, o Divino Mestre me mostrou o flash back de um filme que jamais fora rodado, mas que ficou registrado por poetas toscos em linguagem muito estranha sobre pergaminhos rudes.

Conduziu-me através da invernada dos fundos de suas alegorias e me mostrou o imenso zelo do Pai traduzido no resgate da ovelhinha tresmalhada que se perdera na pradaria larga. Convocou-me para, juntamente com o pastor, reintroduzir pela porta estreita do aprisco a ovelha caidinha, reincorporando-a às outras noventa e nove.

Como ainda me restavam dúvidas sobre meu “semelhante mais assemelhado”, mostrou-me imagens das estradas poeirentas que conduziam a Jericó e a ação do Samaritano no socorro ao pobre homem assaltado e me recomendou, carinhosamente, que a porta mais estreita – e a única – é aquela que me “aproxima do próximo”… E o próximo ali estava!

Na porta principal do templo de Jerusalém, – larga, por sinal – apontou-me o publicano minúsculo, esmagado pela dor, porém elevado em arrependimento que batia no peito e dizia Senhor, Senhor, tem piedade de mim que sou um pobre pecador… Não perdeu a chance de me observar: Filho, a humanidade domará, sempre, a porta larga do orgulho e todos os seus asseclas; importante é te tornares pequeno e quanto menor fores com mais facilidade esgueirar-te-ás pelas frestas da porta estreita.

Saímos do templo e com seu esquálido dedo apontou-me o velho sicômoro que ainda ali estava onde Zaqueu, também pequenino se instalara para melhor observá-lo. Confidenciou-me que naquela ocasião o desejo e a ânsia do coletor O comoveram e que ali estava a fórmula de bem atingir a escassa porta. Pensativo eu me dava conta que meu Querido Amigo gostava das coisas simples e apreciava os homens pequenos.

Ainda nas ruas de Jerusalém, não a cosmopolita de hoje, mas a de vielas acanhadas de ontem, chamou-me a atenção para o alvoroço que emoldurava o estigma, a maledicência e a incompreensão; humildemente pediu-me ajuda para erguer a adúltera, concitando-a não só a mais não pecar, mas a erguer-se de entre as pedras da porta larga. Mostrava-lhe e a mim, dessa forma, que o pecado ou a má vida, porque transitórios, jamais estabeleceriam uma identidade, mas que a compreensão, a tolerância, a condescendência e a compaixão, porque incontestáveis, poderiam estabelecê-la.

Envolvidos por grande luz, – não a de Paris, que em meados do século XIX era escura – mas a do clarão das idéias, me conduziu à rua onde um digno professor que não tinha tempo para uma vida contemplativa, mas com o corpo físico já desgastado pelo trabalho, acabara de escrever uma máxima que simplificaria o simples que já houvera Ele mesmo simplificado: “Fora da caridade não há salvação…” A mais estreita de todas as estreitas portas!

Mas meu Amigo não se deteve por aí… Na imensidão da maior praia do garrão de um País Continente e Pátria do Evangelho, com as sandálias afundadas na areia branca e os olhos castanhos perdidos na imensidão do mar, disse-me que apesar de ali estar todo o glamour de uma porta larga, a porta estreita poderia estar do outro lado e apontava – com o esquálido dedo – para o casario que se estendia do outro lado das dunas…

A porta estreita, meu filho, – dizia enquanto desligava a fita do tempo – está aí muito dentro do peito de cada um. Em cada coração de cada filho há um manancial de água pura, há uma carga energética, há uma fonte interminável…

Com um profundo abraço e exortando-me à Porta Estreita do Bem, meu amigo se despediu e todos estes e outros flash back se interromperam. Daí por diante, o filme de minha vida retomava o curso normal. Normal? Como poderia sê-lo, depois de tantos “recados”?

(Verão de 2012) – Pub em O Clarim, Nov/2013.