Posts Tagged ‘Cordialidade’

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Nestes tempos de movimento intenso em ‘minha’ praia em que pessoas se acotovelam em supermercados, farmácias, bancos… Estava eu na fila da fiambreria de meu mercado onde pedira à gentil funcionária duzentos gramas de queijo e mais duzentos de presunto sem capa. Após me entregar ambos a atendente, sorrindo, me perguntou:

– Algo mais, senhor?

– Sim! Respondi-lhe. Bom dia!…

* * *

Entrando no assunto de ‘movimento intenso’, que é cíclico no Balneário Cassino, cabe-me salientar que todos são responsáveis em amortecer ou abrandar os ânimos, para que esta convivência se torne o mais saudável possível.

Em ambiente de fluxo intenso como o supermercado, cada qual possui sua razão: O veranista temporário tem pressa; ele acredita que o tempo gasto em cada fila do mercado é ‘o’ tempo a menos que ele estará aproveitando de um curto e caríssimo veraneio. O morador, que de certa forma vê ‘invadidos’ locais onde se acostumou a resolver seus problemas, se irrita, alegando que sua tranqüilidade durante o veraneio é quase nula.

‘Voltando à fiambreria’, sou de opinião que o equilíbrio, o bom ânimo e, principalmente, ‘me desarmar’ optando pela cortesia, será a melhor receita. Tentar manter a jovialidade no rosto, a boa educação, e principalmente a gentileza, poderá diminuir o ímpeto de ambas as partes.

Para mim que optei em adotar este lugar para morar, procuro encarar o assunto tentando me enquadrar na questão 388 de O livro dos Espíritos, acreditando que “os encontros que ocorrem, algumas vezes, de certas pessoas e que se atribuem ao acaso, [são] o efeito de uma espécie de relações simpáticas…” e que “há entre os seres pensantes laços que ainda não [conheço]…”Frases-de-amizade-verdadeira-para-amiga

Por que ao estacionar meu automóvel na orla acho o vizinho de minha direita tão simpático, cumprimento-o e ele responde? E por que o da esquerda não me dá a mínima chance de saudá-lo e acho-o tremendamente antipático? Primeiro: Ambos os encontros não são acaso. Segundo: Os laços da afeição e da antipatia não são gratuitos. Terceiro: Não se trata de brandura ou ‘birra’ com um ou com o outro, mas um puro magnetismo, que envolve este trio e que não é de hoje…

Dir-me-ia hoje Hammed que vivemos na atualidade a mais grave das privações humanas – a incapacidade de manifestar nosso amor e carinho de modo claro e honesto e sem nenhum receio de ser mal interpretados e que o amor, esse nobre sentimento somente se efetiva quando expressado em atos e atitudes.

Necessário dizer que de povo para povo a fraternidade e a união entre os homens se manifestam de formas diferentes: O americano não ousa se tocar muito e os brasileiros que lá fazem isso, são mal vistos; o oriental se harmoniza e se saúda com reverências; já os brasileiros abraçam, beijam, falam tocando com as mãos… sem nenhum receio de ser mal interpretados!

* * *

 Se eu te disser que sou religioso, tu poderás desconfiar de mim e desejar conferir através de minha religiosidade se, realmente, sou religioso…

… Explico: Conferir minha religiosidade significa verificar se o amor está expresso em meus atos e atitudes.

Se minha religião – do latim ‘ligare’ ou ‘religare’ – não servir para vincular ânimos acirrados, contendas, disputas, tumultos… à moral do Mestre Jesus, que diz que todos são irmãos e filhos de um Pai amoroso, minha religiosidade será de ‘meia pataca ou de pataca nenhuma’.

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Amor, pag. 189 de Os prazeres da alma, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Boa Nova) – (Verão de 2013, indo ao ‘lotado’ supermercado Guanabara).

D. Cristiane já havia atendido a uma turma de turistas de fora do estado, mas sem sinais de cansaço nos recebeu, com sorriso largo e um ‘portuliano’ fluente e gracioso, na primeira casa, a de pedra, construída em 1876 por Giovanni Strapazzon. Entre uma degustação e outra de ótimos vinhos, sucos, grapas e licores – Amaretto, o melhor deles – a simpática senhora nos contava que ali foram filmadas cenas de O quatrilho e que tal evento impulsionaria a visitação à sua propriedade.

Num lote todo emoldurado por belos parreirais, D. Cristiane nos dizia e nos mostrava que ali estavam erguidas as quatro casas construídas de 1876 para cá: A primeira, de pedra – onde foi filmado parte de O quatrilho – a segunda, em madeira, que está sendo restaurada, a terceira, onde em seu porão funciona a cantina, e a quarta casa, mansão da família, construída recentemente com o intuito de sediar uma pousada.

Entre uma degustação e outra de salame, copa, queijo e licores, nossa querida ‘anfitriã’, ainda nos contava historinhas como a da eira, beira, tri eira. Dizia ela que antigamente, pelos idos de 1940, as casas possuíam no beirado dos telhados, eira, beira ou tri eira ou ‘nada disso’ e os jovens que desejavam se casar, antes de conhecerem a moça da casa olhavam primeiro para o beirado da construção; caso não tivesse eira nem beira,nem chegavam a falar com o pai da moça. Se a casa tivesse beira ou tri eira, se ‘encorajavam’ e falavam com o pai da pretendida. Verificando que sua casa possuía tri eira, arrisquei afirmar que para ela tinha sido ‘fácil’ arrumar um bom partido… A jovem senhora, entretanto, desconversou.

Perguntada, ainda, se nunca tivera vontade de se mudar para o outro lado da cidade – o glamoroso Vale dos Vinhedos – a senhora me explicou que ali seu Giovanni havia recebido – e pago – seu lote e que suas gerações ali se fixaram e procuraram fazer o ‘melhor possível’.

A conversa no porão da casa de 1940 continuava agradável, pois os produtos eram gostosos, as explicações francas, e a honestidade, trabalho e alegria estavam estampados na fronte daquela senhora, de uma quarta geração de imigrantes que chegaram àquelas terras em 1875.

Obrigado, D. Cristiane, por nos mostrar talvez e em minha opinião, o melhor lado de Bento Gonçalves.  Grazie di tutto e che il Padre celeste e Maria, Madre di Gesù a proteggerti sempre!

 

Fotos: 1. Giovani Valduga (Guia), D. Cristiane e Maria de Fátima; 2. Casa de Pedra; 3. Casa de madeira (em restauração); 4. Cantina (Casa de 1940); 5. Mansão (Pousada); e 6. Detalhe da ‘eira, beira e tri eira’ – (Final de uma primavera quente de 2012).

 

Nestes quase 6 anos morando efetivamente no Balneário Cassino, amealhei bons amigos. Sem dúvida, meu vizinho da esquerda é um destes: Quase 20 anos mais velho, meu vizinho só me deu, até hoje, ótimos exemplos; ensinou-me, por exemplo, que depois dos 60, posso sim, realizar grandes feitos em minha casa física e em meu lar. Meu vizinho, juntamente com a vizinha – pessoas de muita fé -, possui família íntegra: Filhos, netos, bisnetos, todos oriundos de uma mesma cepa. Se visito muito meu vizinho? Em 6 anos umas três vezes… A primeira foi numa agonia grande que sua família passou, a segunda quando me ausentei por longo período e dele precisei e a terceira em seus 80 anos e lá estava ele, orgulhoso, rodeado quase que na integralidade por sua família… Os intrusos eram minha velhinha e eu. Quando meu vizinho tosse ou espirra, me anteno porque pode ser nada ou pode ser tudo… Normalmente– o que bom! – é nada! Nossas conversas são no muro, através de uma escadinha; pela escadinha, também, trocamos, mimos de pequeno vulto: Agradinhos para não deixar enfraquecer a amizade. Sinto-me imensamente privilegiado em ter como o meu parente mais próximo, este meu vizinho da esquerda que é cem por cento direito. (Primavera de 2011).