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Afirma-se que a arte é a principal função da música.

Música com propósitos éticos, sempre será desenvolvida por Espíritos ligeiramente acima de patamares comuns.

Desconhece-se civilização que não a adote como manifestação de sua cultura e desenvolvimento.

A música como arte, atende a propósitos variados: culturais, é claro, manifestações, reivindicações, bravuras, folclore, tradicionalismo, gospel (do Evangelho), militares, educacionais, terapêuticos…

Poetas compõem letras, improvisos, ‘payadas’, rimas, versos, quadras… as interpretam ou outros o fazem. Compositores, intérpretes, músicos, integram um clã artístico especial.

A história da música se confunde com o desenvolvimento da inteligência humana. Desde a pré história o homem observou sons na Natureza; por eles se encantou e começou a compor, cantar e construir instrumentos que os reproduzissem.

É muito difícil definirmos música; não temos tal pretensão, pois música (boa) se toca, ouve, sente. Entretanto pensamos que ela, enquanto arte nos influencia a outras artes; entendemos compositores, poetas, payadores, letristas, repentistas como Espíritos especiais, muito próximos dos Altos; e que realizarmos qualquer profissão com paixão, (cozinhar, clinicar, exercitar, instruir…) torna-nos artistas. Quase que profissionais músicos!

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“A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição…” (Aristóteles).

(Outono de 2017).

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O saldo do passeio à região das Missões foi extremamente positivo; sem dúvida ‘seu’ Carlos, ‘dona’ Véra, a guia, ‘dona’ Alzira, a querida ‘benzedeira’ e todas as pessoas de boa vontade daquela área, em muito contribuíram para o aprendizado. Falando em aprendizado, relato a seguir algumas informações gerais, algumas curiosidades e também alguma ou outra lenda, quase maledicência:

1. A ‘Estrutura’ das Reduções: Todas as Reduções tinham uma estrutura padrão, tendo, ao centro uma praça para jogos de guerra e festividades; o cabildo; a igreja; as casas dos índios (todas com varandas); o cotiguassu; o cemitério; o hospital; a quinta ou horta; a casa dos padres (claustro) mais o pátio; e o colégio e o pátio.

2. A praça – Bem ao centro da estrutura, a praça servia para todas as festividades que se possa imaginar: Lúdicas, esportivas, manifestações culturais, religiosas…

3. O cabildo – No cabildo reunia-se o conselho dos caciques que representava o executivo, o legislativo e o judiciário da Redução. Os jesuítas também podiam participar desse conselho porém não interferiam muito nas decisões indígenas. Digamos que esse procedimento era uma forma política de proceder dos religiosos deixando os guaranis mais à vontade, na condução dos seus destinos.

4. As casas dos índios – Todas possuíam varandas; estas eram calçadas e o interior das casas de ‘chão batido’.

5. O cotiguassu – O lugar era reservado a órfãos, viúvas, donzelas solteironas ou mulheres com maridos ausentes por longos períodos. No pátio poderia haver sentinelas guarnecendo o local. Dizem as más línguas que o cotiguassu era um instrumento de prevenção à poligamia e, quem sabe, até um cilício aos próprios jesuítas para não caírem em tentação.

6. O cemitério – Era dividido em quatro partes: meninos, meninas, homens, mulheres; ao centro a divisão formava uma cruz.

7. A quinta ou horta – Cultivado pelos padres, nesse local colhia-se frutas, hortaliças, ervas de chá, temperos; climatizava-se aí, também sementes.

8. O colégio e o pátio – Aí os meninos aprendiam a ler e escrever e as meninas a bordar e tecer.

9. Havia, ainda, outras dependências como oficinas e a adega. É importante considerar que os índios eram extremamente inteligentes – talvez os mais das diversas tribos que viviam nas cercanias -, e nas oficinas, realizavam diversos trabalhos artísticos, salientando-se, entre eles o fabrico de estátuas em madeira e dos próprios instrumentos (violinos, rabecões, rabecas, violoncelos).

10. As imagens – as maiores – eram, em sua maioria, ocas. Como os índios possuíam mais medo do castigo moral que do físico, os jesuítas os atormentavam: Por ocasião de suas  preces, escontiam-se no ‘oco’ das imagens e amedrontavam os coitados… Será lenda?

11. Uma consideração final – Lembram da pergunta que fiz ao ‘seu’ Carlos na chegada? Vou repetir: ‘E daí, vizinho, quem tinha razão, os padres, os índios, os portugueses ou os espanhóis?’ Como ‘seu’ Carlos desconversou, cheguei à minha conclusão sozinho: Entre os índios (que eram os mariscos) estavam os rochedos, representados pelos portugueses e espanhóis que eram os vilões, e os jesuítas que muito bem intencionados empenhavam-se na consecução de seus sagrados propósitos. A serem escravizados pelos imigrantes (portugueses e espanhóis) os índios se submetiam ao monoteísmo dos religiosos; dentro das reduções, portanto, se sentiam protegidos e em semi-liberdade. Dos males o menor!

Foto: Maquete da Redução de San Luiz Gonzaga – (Primavera de 2011).