Posts Tagged ‘Dedicação’

madreterezaDidaticamente, diz-se que combustível é toda a substância capaz de gerar uma energia na forma de calor, chama ou gases, transformados em potencial capaz de movimentar algo…

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Analisando os diversos e mais nobres predicados dedicados à abnegação, quais seja altruísmo, dedicação, desinteresse, desprendimento, desvelo, devotamento, sacrifício, generosidade, renúncia… chega-se à conclusão que abnegação será sempre o combustível que move ou estabelece a fraternidade. Não pode, portanto, a fraternidade manifestar-se sem a abnegação, pois quem coopera cede sempre alguma coisa de si mesmo, dando testemunho de abnegação.

Uma cooperativa – e a fraternidade é uma – sempre será alimentada pela colaboração do potencial de cada ‘associado’; será a parte ou a doação de cada um para o bem do todo: Imaginemo-nos ao redor de uma agradável fogueira onde todos os beneficiados a alimentam cada um com sua achinha de lenha…

… Abnegação será essa doação, ou a achinha de cada um que irá aquecer o todo; o combustível que irá manter o fogo aceso.

A mesma fogueira ficaria desabastecida – sem combustível – no momento em que todos os indivíduos desejassem usufruí-la, mas negasse cada qual sua achinha de lenha. Seria o ego ou o personalismo de cada um se sobrepondo à generosidade, à doação, à colaboração… necessárias a manter a fraternidade acesa.

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A sinceridade sempre será o atributo que legitimará tal entrega, tornando verdadeira a cooperação.

(Sintonia: questão 350 de O Consolador, ditado por Emmanuel a Chico Xavier, 29ª edição da FEB) – (Primavera de 2015).

1770163345_1364647994Em pleno Sahel africano – faixa horizontal que delimita o final do deserto do Saara e as savanas do centro do continente – localiza-se a República semi-presidencialista Burkina Faso, oeste africano e ainda na parte mais árida da faixa. Nesse país de pouca relevância, vive Yacouba Sawadogo, negro, muçulmano, de idade não revelada e fazendeiro humilde.

Observador do clima de sua região, Yacouba percebeu que lá chovia apenas numa época do ano e que entre as décadas de setenta e oitenta do século passado a estiagem se acentuou. Inconformado com a situação, o fazendeiro, que aparenta ter hoje mais de setenta anos, resolveu aplicar nos trinta hectares de sua fazenda a técnica zaï, de seus antigos ancestrais:

Antes das chuvas previstas por suas observações, Yacouba fez à picareta no solo árido e endurecido, – pois enxada não lhe entrava – inúmeras covas como se fosse para plantar mudas de árvores. Deitou nelas farta compostagem à base do estrume abundante na área, sementes trazidas de árvores distantes e tomou como seus aliados cupinzeiros muito comuns na região os quais estabeleceram verdadeiras galerias entre as covas. Realizou, ainda, pequenas comportas de pedras – diques – para que a chuva esperada escoasse mais lentamente. Feito o preparo, agora Yacouba esperaria as chuvas…

E as chuvas vieram, inundaram o Sahel e ficaram retidas nas covas. As primeiras sementes germinaram e encontraram calor e umidade. Mas Yacouba não venceria o deserto apenas no primeiro ano: Foram necessários trinta e cinco anos para que seus trinta hectares se transformassem numa reserva verde com mais de sessenta espécies de árvores de sementes nativas.

Outras culturas vieram: sorgo e milho; e alimentaram o povo; e o Yacouba ‘louco’ e ‘burro’ – assim era chamado no início – já era o Yacouba salvador, gênio, artista; o missionário de hoje!

Yacouba, não se intitulando dono da técnica zaï, instala nas fazendas próximas workshops – oficinas – visando se alastrarem suas idéias. Mais recentemente, Yacouba seria convidado por Barack Obama para apresentar-se em Washington e discursar sobre suas iniciativas; também participaria como palestrante a respeito de seus empreendimentos em conferência realizada na Coréia do Sul1

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Na orientação do Benfeitor Emmanuel, arte significa “a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse ‘mais além’ que polariza – concentra – as esperanças da alma.”2 e ainda que “os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas [paralisias] do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das idéias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos das atividades que lhes é própria, como a literatura, a música, a pintura, a plástica.”3

Verifiquemos que na personalidade em estudo não estamos vendo o artista em atividades da literatura, música, pintura, ou da plástica, mas um indivíduo focado numa responsabilidade primária que chamou para si, a fim de contornar uma calamidade e, ao invés de ficar paralisado, como os demais de seu povo, desejou tornar-se o missionário das idéias, exatamente dentro de um potencial evolutivo que já possui.

Continuará Emmanuel: “Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão somente a luz espiritual (…) então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus…”4 Se ‘inevitáveis serão os escândalos, mas ai do que causá-los’, inevitáveis e instrutivas também serão as catástrofes e calamidades e, por sua vez, venturosos e graciosos os missionários que, envolvidos na luz espiritual do Governador Jesus, para essas calamidades apresentarem soluções.

Jesus, em todas as épocas, desde a formação do Orbe, até os tempos presentes, sempre esteve a inspirar os antigos e novos profetas. Ao escolher ‘os seus’, não fez distinção entre o humilde pescador e o coletor de impostos. Como não o fez ‘encarnado’, o que importa a esse Administrador não será as aparências do artista, missionário ou profeta – se branco, negro, muçulmano, cristão, padre, com túnica, de paletó e gravata… Importa a este Zeloso, o desinteresse do eleito, sua abnegação, amor à causa, vontade de solucionar previstos e imprevistos.

Tais missionários, mormente os novos profetas, poderão estar ‘disfarçados’ de fazendeiros, muçulmanos, padres, madres, reverendos, escriturários, bandeirantes, médicos, sob solidéus… Há um propósito convicto do Mestre e títulos, rótulos ou designações serão irrelevantes, haja vista o personagem a que hora nos reportamos e mais tantos outros como São João Bosco, madre Tereza e irmã Dulce, Martin Luther King Jr., Francisco Cândido Xavier, Cairbar Schutel, Bezerra de Menezes, Divaldo Pereira Franco, Jorge Mário Bergoglio…

Não somos profissionais religiosos; professamos confissões diferentes! Entretanto, todo aquele que ‘professar Cristo’, independente da cor de sua batina, paramento, ritual, cor, casta, credo, corrente… fará parte da religiosidade futura que se chamará fraternidade. Caridade e fraternidade são os grandes imunizantes contra o orgulho que teima em nos aniquilar e imobilizar-nos as tarefas. Enquanto que a fraternidade é o conveniente consórcio de talentos a serviço de uma comunidade, a caridade é nossa quota de retribuição aos consorciados, mormente aos menos aquinhoados de possibilidades materiais, morais e intelectuais.

Nossas fala, escrita, ações e trabalhos, só terão validade quando se aproximarem ao máximo de decorrente vivência. A profissão religiosa é irrelevante e não representa nenhum empecilho se a intenção for a de servir constantemente. Ou André Luiz não teria, costumeiramente, um padre em sua equipe de socorro espiritual às regiões dos mais necessitados! Ou Yacouba seria estigmatizado não por ser negro, mas por ser muçulmano, estes tão execrados na história dos nossos dias.

Nossas iguarias, lar, bem estar, inteligência, autoridade… estão todos ancorados por confrades dedicados que diuturnamente por nós se devotam. Todo retorno em forma de caridade e bem querença a eles retribuídos, nos vacinará contra o egoísmo e homologará nossas sociedades verdadeiras. Quando as aldeias vizinhas de Yacouba se deram de conta que o missionário estava no caminho certo e obstinado às melhores intenções possíveis, ou quando deixaram de taxá-lo de louco, a ele se uniram e, dentro de sua técnica, passaram a plantar mais, a colher mais e a terem alimento mais farto. Porque o missionário, aquele banhado pela luz espiritual de seu Governador também é um influenciador em potencial; também é o grande agente de contágio do bem.

Quando Emmanuel nos dá o significado de artista, nos perguntamos como os vemos, em nosso meio, no dia a dia e se os vemos? Poderão ser todos aqueles que, reconhecendo o exato potencial de suas habilidades, – nem mais, nem menos – as desenvolvem dentro também de uma luz espiritual, ou realizam o mais além para que, na forma de serviço, promovam soluções, reflexões, instruções, consolações… todas essas ao nosso alcance em maior ou menor escala!

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“Se você ficar em seu próprio cantinho, todo o seu conhecimento não tem qualquer utilidade para a humanidade”, diria em sua simplicidade Yacouba Sawadogo, ao demonstrar consciência de sua responsabilidade e dando-nos a entender que ele, fugindo ao convencionalismo terrestre, e embora sem a pretensão de ser o grande missionário das idéias, não desejou nunca desertar da responsabilidade de, exatamente dentro de seu patamar evolutivo, colaborar com as soluções que estiveram ao seu alcance e façam já parte de seu acervo de artista, missionário e profeta.

Arte é aquilo que fica: Passam-se anos, séculos e a boa música será executada; a tela e seu pintor serão cobiçados; o poeta será recitado; o ator será aclamado; o pesquisador será reconhecido; o servidor será imortalizado; profecias e profetas ecoarão; e o missionário será venerado…

“Yacouba sozinho teve mais impacto no combate à desertificação do que todos os recursos nacionais e internacionais combinados.” (Dr. Chris Reij, Vrije University of Amsterdam).

Bibliografia:

1. Baseado no documentário de Mark Dodd (2010), O homem que parou o deserto;

2. Xavier, Francisco Cândido, ditado por Emmanuel, O Consolador, questão 161, 29ª edição da FEB; e

3 e 4. Idem, questão 162 – (Outono de 2015).

Pub RIE Jul/2015

Uma Guia de verdade – Assim que cheguei a São Miguel das Missões, almoçamos minha velhinha e eu, o que sobrou no Restaurante Guarani. Comida simples e, considerando adiantado da hora, mais simples ainda. Questionei a dona do estabelecimento sobre agências de turismo, guias e coisas dessa espécie. Como sentiu a proprietária um tanto embaraçada, uma senhora que estava no restaurante e que não possuía as feições locais, pois tinha a pele clara e os cabelos ruivos, interveio, apresentando-se como guia e fornecendo-me o endereço da principal agência para a qual prestava serviços. Chegando à referida agência, encontramos minha velhinha e eu o ‘Seu Antônio’ – cidadão educado e interessado -, que me apresentou um ‘pacote’ para o dia seguinte… Só precisaria encontrar um guia. Após o contato, disse-me que a guia seria… Dona Vera! – Véra Lúcia Dreilich da Silva -.  Dona Vera, das 8 às 21h do dia seguinte, fez uma varredura em Santo Ângelo Custódio, Santuário de Caaró, Santuário de Schoenstatt e São Miguel Arcanjo, com competência e lisura impecáveis, demonstrando ser extremamente organizada e gostar do que faz. Dona Vera é filiada à Associação de Guias de Turismo das Missões, sediada em Santo Ângelo. Sou-lhe inteiramente grato, dona Vera, pela sua atenção, pelos belos conhecimentos passados que, certamente enriqueceram minha incursão à bela Região Missioneira. Um forte abraço e que os queridos São Miguel, Anjo Custódio, a Mãezinha de Jesus e os 3 Mártires a protejam, sempre!

(Foto: Dna. Véra Lúcia, Guia e este blogueiro, em 02 de dezembro, Ruínas de São Miguel Arcanjo – Primavera de 2011).

‘Seu’ Carlos, patrimônio dentro do patrimônio – Conheci hoje o ‘seu Carlos’. Na chegada a São Miguel das Missões, deparei-me com um povo meio fechado – esperava o contrário -. ‘Seu Carlos’, entretanto, um vendedor de artesanato localizado exatamente à frente da igreja de São Miguel – ou Sítio Arqueológico -, não proporcionou a mim e à minha velhinha uma aula de história, ‘seu Carlos’ é a própria história. Comecei comendo-o pelas beiras com a pergunta: E daí vizinho – pois ainda não sabia o seu nome -, quem teve razão, o índio, o jesuíta, o português ou o espanhol? ‘Seu Carlos’ desconversou; em contrapartida contou-me uma história muito mais bonita: Criara-se dentro da igreja, pois seu pai era integrante de uma equipe que, lá pelos idos de 1937 iniciaria o restauro do Sítio e o entregaria ao zelo da UNESCO/IPHAN. Desta forma, o humilde senhor daquela época para cá, entregar-se-ia, juntamente com o pai a tão nobre missão. Hoje com 75 anos conta histórias para os filhos, netos e… Para os curiosos como eu. Quase esqueço: ‘Seu Carlos’, viúvo há 11, todo fagueiro, disse-me que casará, novamente, na próxima sexta feira, dia 2 de dezembro. Se comprei artesanato de ‘seu Carlos’? A velhinha saiu atopetada!

Foto: Esta tomada é sempre obrigatória…(30 de novembro, chegada a São Miguel das Missões, segundo dia do passeio – Primavera de 2011).

Estávamos, ainda, em plena atividade nas Forças Armadas, quando resolvemos – ou necessitamos – investigar o estado de nossa próstata, visto que já não éramos tão jovens. Fizemos o agendamento e na data estávamos na sala de espera do posto de nossa corporação, aguardando o famoso “próximo” ou que o profissional berrasse nosso nome, sem sequer levantar-se de sua cadeira. Contraditoriamente, o colono – Por que colono? Assim carinhosamente o apelidáramos, pois, antes mesmo da consulta, havia sido nosso cliente: Como Identificador de Corpo de Tropa, descobríramos que o dito era colono de pai, mãe, avós e sempre imaginamos suas dificuldades na formação – estava à nossa frente, com uma expressão tranqüila e, com a mão em nosso ombro, convocou-nos: “Passe, Cláudio; o que lhe aflige?”

Esta pequena história meio verdade, meio ilustrativa convida-nos a iniciar uma reflexão:

Estaria ali, diante de nós, um humanitário, um sacerdote ou um lídimo discípulo de Hipócrates? Todos eles e, sobretudo, um médico, médium e… Ainda com muitos cacoetes de colono! Estava ali, um autêntico profissional religando amolados à saúde; estava ali um sacerdote dando exemplos de como se religa agoniados à misericórdia do Pai; estava ali o colono que, quem sabe, no colo dos pais, aprendera a mais básica matéria: Religar à solidariedade do Cristo os d’Ele distanciados ante às próprias negligências e as do mundo.

Os verdadeiros precursores de nosso Divino Operário – e Este aqui representando a todos – poderão estar por aí enjalecados, togados, envergando túnicas ou, quem sabe… Enxadas e divina e utilmente disfarçados de médicos, magistrados, mestres e colonos.

“… Os médicos espirituais trabalham em conjunto com os abnegados médicos encarnados… inspirando-os ao diagnóstico adequado… Os Benfeitores Espirituais não estão escondidos nos templos da nossa fé; eles visitam com habitualidade os consultórios médicos… sobretudo quando o médico é humilde e quando o paciente ora e tem fé… Jamais desprezemos a medicina terrena porque os médicos são os primeiros médiuns da nossa cura.”1 Com que autoridade Dr. Bezerra de Menezes nos faz estas assertivas! Poucos como ele entendeu as aflições de um povo que além do remédio para o corpo físico, procurava, junto a ele, lenitivos para suas almas.

Exortou-nos, certa vez, o nosso Divino Lanterneiro: “Vós sois a luz do mundo”2. Quer sejamos cidadãos comuns, operários, médicos, juízes, professores, somos, todos, concitados a “iluminar caminhos, dissipar trevas e expulsar as sombras, que em oportunidades múltiplas insistem em esparramar sofrimento e dor junto ao seio da coletividade.”3

“É dando que se recebe” dizia-nos o de Assis; o nosso, o brasileiro, quando se sentia muito aborrecido com suas imperfeições, procurava a periferia das cidades, visitando as favelas. Pois estes dois Franciscos escreveram, não com suas penas – ou lápis – mas com suas vidas, o mais autêntico Manual de Caridade.

Nossa história pode ter parecido lorota, mas, o seu misto de fábula e realidade, nos leva a considerar que ali estava, à nossa frente, um ex-colono, e um atual e verdadeiro médico e médium, iluminando caminhos e expulsando as sombras de dores e sofrimentos.

(Bibliografia: 1. Bezerra de Menezes/De Lucca – Recados do meu Coração – Pg. 115; 2. Mateus, 5,14; 3. Waldenir A. Cuin – Mensagens de Esperança e Paz – Pg. 136).

C/018 – (Verão de 2010/11, já à meia boca Pub. em O Clarim, Jun 2011).