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amor e odio

“Tudo é amor. Até o ódio, o qual  julgas ser a antítese do amor nada mais é senão o próprio amor que adoeceu gravemente”. (Chico Xavier).

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Pode ser até paradoxal, mas é possível que entre o ódio e o amor esteja circunscrito todo um percurso evolucional.

Um dia o generoso já foi egoísta ao extremo; o agora compreensivo já foi o maior dos intolerantes; o hoje atencioso já foi só indiferença; quem era só desprezo é hoje devotamento… Por isso afirmo que, embora pareça contradição ou disparate, há todo um roteiro amoroso de transformação no caminho do ódio ao amor, ou de todo um séquito que representa o mal até a corte amorosa do bem.

A indiferença, o egoísmo, o desprezo, a intolerância… que alguém demonstra hoje é exatamente a sua melhor e muito pessoal forma de amar. Ou representa na atualidade precisamente a quantidade e forma de amor que possui.

Quem senão o próprio amor quebrará todas as barreiras da indiferença, do desprezo, do egoísmo, da intolerância… construídos pelas doenças do preconceito, da inveja, do orgulho e seu séquito cruel, a partir de uma liberdade emprestada aos indivíduos por um Pai Justo e Bom? O amor, assessorado pelo perdão, compreensão, generosidade, tolerância… sempre saberá se entender com esses estranhos tipos de amor adoecidos gravemente.entre-o-amor-e-o-odio2[1]

Na parábola do joio*, o Mestre, tendo por palanque um barco, ensinaria à multidão, às margens do mar da Galiléia que, quando os trabalhadores sugeriram ao seu senhor que o joio fosse arrancado do meio do trigo, teria lhes ordenado que não o fizessem, pois “arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo…”

Pergunto-lhes se todos esses indivíduos com tipos de ‘amores’ tão estranhos e doentios, mas de conformidade com seu atual estado evolucional, não estão desejando ensinar algo, através de suas diferenças e até patológicas formas de amar? Domar, quem sabe, inflexibilidades e intolerâncias; driblar ilusões e absolutismos; refrear vaidades e exibicionismos; conter excentricidades e extravagâncias?

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O solo do amor verdadeiro é tão fecundo e generoso que nele poderá nascer até ervas estranhas e opostas, mas úteis para que muitos propensos ao amor meditem sobre suas variadas síndromes…

Se algum dia escreveres algo, inundado pelos fluídos de ódios, ressentimentos e mágoas, mão o publiques de imediato, pois certamente estarás mal assessorado. Permite que a noite engula o dia e após uma boa noite de sono e depois que a mesma noite houver parido novo dia, ora, arregaça as mangas, ajuda alguém e reformula teu texto, agora sob lágrimas de amor, compaixão e reconhecimentos… Aí publica teu trabalho, pois certamente tuas companhias já serão outras…

*Mt, XIII, 28 e 29 – (Texto escrito ‘sob tensão’ no sábado, 4 de maio e reavaliado segunda-feira, 6 de maio – Outono de 2013).

lamparina

O amor desenvolve características pessoais, distinguindo e particularizando a criatura.

A história da humanidade está cheia de vultos que se notabilizaram por seus bons feitos ou que se vulgarizaram pelos maus feitos. Em ambos os casos, e sem medo de errar, os primeiros amaram demais e os segundos odiaram demais. Diria ainda, que em ambos os casos essas pessoas ou se distinguiram das demais ou entorpeceram suas vidas e as de outrem…

Se o amor ao longo dos tempos contou as mais belas histórias, encenou peças comoventes e edificantes, pintou quadros os mais fiéis possíveis, compôs melodias e escreveu rimas primorosas… o ódio edificou barreiras, construiu muros vergonhosos, promoveu tragédias, generalizou e banalizou costumes. Quando indivíduos começaram a desprezar seus semelhantes e, pior ainda, lhes ficaram indiferentes, à medida que lhes sonegaram o necessário incentivo, se co-responsabilizaram pela deserção de seus talentos. Se a melhor forma de destruir um homem é impedi-lo de amar, o amor à criatividade e ao ineditismo também poderá ser morto pela vil indiferença do semelhante…

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Quando o Orientador me diz neste e em outros capítulos que a religião do futuro será a fraternidade e que amar será como respirar em uma atmosfera pura ou beber de uma água translúcida, chego à conclusão, entristecido, que o futuro dos insensíveis e dos indiferentes está na contramão dessas previsões…holofote

Mas que ‘quantidade’ e que ‘tipo’ de amor desenvolveram os vultos do primeiro caso? Ora o amor ao longo dos tempos foi se tornando vulgarizado, tanto que todos os pensadores sérios resolveram defini-lo não como o amor romântico ou simplista, mas aquele que traduz benefícios prestados a outrem ou regozijo em ver a evolução de terceiros. O Orientador aqui não foge à regra ao classificar a virtude em amor romântico, possessivo e amor real.

Se foi por amarem tanto que vultos se notabilizaram, qual a ‘quantidade’ de amor real que eu precisarei desenvolver para me distinguir e particularizar? Simples! Tão somente aquela que as características pessoais do meu momento evolucional o permitir, ou…

… Considerando que o amor, traduzido pelo desejo do bem à outra pessoa ou alegria com sua evolução, seja uma luz a iluminar os caminhos de outrem, se meu degrau não permitir que eu seja um holofote, que eu seja apenas uma lamparina em suas vidas…

Sobre lamparinas e holofotes, não há demérito em, desde que seja real, eu amar pequenininho ou grandão… O importante será amar de uma forma natural e doar todo o amor que me seja possível ou que eu tenha…

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Se eu não puder ser hoje um holofote em teu caminho, permite-me ser apenas uma lamparina… mas que eu não seja nunca, jamais, aquele que através de minha indiferença venha a sonegar meu incentivo aos talentos que possuis!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Amor, pag. 179 de Os prazeres da alma, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Boa Nova) – (Outono de 2013).