Posts Tagged ‘Devotamento’

crux-1-689x364-720x380Reportando-nos ao termo devoto, pressupomos indivíduo totalmente introspecto e recolhido ao mais completo colóquio com sua divindade… Não é este tipo de devoção que desejamos abordar:

Emmanuel nos assevera que um trabalhador poderá demonstrar altas características de inteligência e habilidade, mas, se não possui devoção para com o serviço, será sempre um aparelho consciente de repetição.

A seguir, o Benfeitor cita o exemplo do Mestre crucificado: só Ele marcou o madeiro da cruz como sinal de abnegação, luz e redenção. Antes dele, homens e mulheres de Jerusalém e de toda a Palestina foram sentenciados a cruzes, mas, movido pela devoção à Sua causa, somente a Dele, a do Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum (Jesus de Nazaré Rei dos Judeus – INRI), ficou conhecida como símbolo de Salvação; o grande farol luminoso a influenciar, salvaguardar e direcionar a humanidade; e o Império indestrutível, em contraponto a todos os que tiveram início, apogeu e ruína.

Convém explicarmos que, doutrinariamente, esse Rei abnegado indicou-nos, em todos os tempos o ‘rumo’ da salvação. Salvamos-nos individualmente ‘com’ o desejo de perseguir esse sagrado rumo.

O Apóstolo dos Gentios, Paulo de Tarso, exorta às comunidades de Éfeso – e a todos nós – que precisamos “renovar-nos pelo Espírito no nosso modo de sentir.” (Efésios, 4:23). Ou que não basta sermos inspirados diuturnamente, mas que precisamos elevar tal inspiração à categoria de zelo, cuidado, amor e serviço. Será importar-nos e, dessa forma alçar nossa sensibilidade ao expoente máximo. E isso é devoção; embora que muito aquém daquela evidenciada nos feitos de nosso Rei.

Renovarmos nosso modo de sentir significa o uso e o abuso das decisões do coração em detrimento da razão: paradoxalmente, – pois estudamos, vivemos e respiramos uma doutrina baseada em pensamentos claros e fé raciocinada – tal renovação significa o nosso coração tomar atitudes que surpreenda nossa própria razão.

É o que sucede todas as vezes que analisamos a “caridade segundo São Paulo” e com muita dificuldade a desejamos colocar em prática, considerando que ela “não é temerária, nem precipitada; não desdenha, nem suspeita mal.”

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É possível que o caminho de nossa devoção, embora um arremedo à de Nosso Senhor Jesus Cristo, passe, necessariamente, pelo ‘exagero’ do sentimento em prejuízo da razão. Haverá situações, as compreendidas pelo apóstolo Paulo e acima citadas, que ficaremos sem saída, pois somente o coração nos salvará!…

(Sintonia: Fonte viva, Cap. 67, Modo de sentir, ditado por Emmanuel a Chico Xavier, 1ª edição da FEB) – (Primavera de 2016).

1770163345_1364647994Em pleno Sahel africano – faixa horizontal que delimita o final do deserto do Saara e as savanas do centro do continente – localiza-se a República semi-presidencialista Burkina Faso, oeste africano e ainda na parte mais árida da faixa. Nesse país de pouca relevância, vive Yacouba Sawadogo, negro, muçulmano, de idade não revelada e fazendeiro humilde.

Observador do clima de sua região, Yacouba percebeu que lá chovia apenas numa época do ano e que entre as décadas de setenta e oitenta do século passado a estiagem se acentuou. Inconformado com a situação, o fazendeiro, que aparenta ter hoje mais de setenta anos, resolveu aplicar nos trinta hectares de sua fazenda a técnica zaï, de seus antigos ancestrais:

Antes das chuvas previstas por suas observações, Yacouba fez à picareta no solo árido e endurecido, – pois enxada não lhe entrava – inúmeras covas como se fosse para plantar mudas de árvores. Deitou nelas farta compostagem à base do estrume abundante na área, sementes trazidas de árvores distantes e tomou como seus aliados cupinzeiros muito comuns na região os quais estabeleceram verdadeiras galerias entre as covas. Realizou, ainda, pequenas comportas de pedras – diques – para que a chuva esperada escoasse mais lentamente. Feito o preparo, agora Yacouba esperaria as chuvas…

E as chuvas vieram, inundaram o Sahel e ficaram retidas nas covas. As primeiras sementes germinaram e encontraram calor e umidade. Mas Yacouba não venceria o deserto apenas no primeiro ano: Foram necessários trinta e cinco anos para que seus trinta hectares se transformassem numa reserva verde com mais de sessenta espécies de árvores de sementes nativas.

Outras culturas vieram: sorgo e milho; e alimentaram o povo; e o Yacouba ‘louco’ e ‘burro’ – assim era chamado no início – já era o Yacouba salvador, gênio, artista; o missionário de hoje!

Yacouba, não se intitulando dono da técnica zaï, instala nas fazendas próximas workshops – oficinas – visando se alastrarem suas idéias. Mais recentemente, Yacouba seria convidado por Barack Obama para apresentar-se em Washington e discursar sobre suas iniciativas; também participaria como palestrante a respeito de seus empreendimentos em conferência realizada na Coréia do Sul1

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Na orientação do Benfeitor Emmanuel, arte significa “a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse ‘mais além’ que polariza – concentra – as esperanças da alma.”2 e ainda que “os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas [paralisias] do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das idéias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos das atividades que lhes é própria, como a literatura, a música, a pintura, a plástica.”3

Verifiquemos que na personalidade em estudo não estamos vendo o artista em atividades da literatura, música, pintura, ou da plástica, mas um indivíduo focado numa responsabilidade primária que chamou para si, a fim de contornar uma calamidade e, ao invés de ficar paralisado, como os demais de seu povo, desejou tornar-se o missionário das idéias, exatamente dentro de um potencial evolutivo que já possui.

Continuará Emmanuel: “Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão somente a luz espiritual (…) então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus…”4 Se ‘inevitáveis serão os escândalos, mas ai do que causá-los’, inevitáveis e instrutivas também serão as catástrofes e calamidades e, por sua vez, venturosos e graciosos os missionários que, envolvidos na luz espiritual do Governador Jesus, para essas calamidades apresentarem soluções.

Jesus, em todas as épocas, desde a formação do Orbe, até os tempos presentes, sempre esteve a inspirar os antigos e novos profetas. Ao escolher ‘os seus’, não fez distinção entre o humilde pescador e o coletor de impostos. Como não o fez ‘encarnado’, o que importa a esse Administrador não será as aparências do artista, missionário ou profeta – se branco, negro, muçulmano, cristão, padre, com túnica, de paletó e gravata… Importa a este Zeloso, o desinteresse do eleito, sua abnegação, amor à causa, vontade de solucionar previstos e imprevistos.

Tais missionários, mormente os novos profetas, poderão estar ‘disfarçados’ de fazendeiros, muçulmanos, padres, madres, reverendos, escriturários, bandeirantes, médicos, sob solidéus… Há um propósito convicto do Mestre e títulos, rótulos ou designações serão irrelevantes, haja vista o personagem a que hora nos reportamos e mais tantos outros como São João Bosco, madre Tereza e irmã Dulce, Martin Luther King Jr., Francisco Cândido Xavier, Cairbar Schutel, Bezerra de Menezes, Divaldo Pereira Franco, Jorge Mário Bergoglio…

Não somos profissionais religiosos; professamos confissões diferentes! Entretanto, todo aquele que ‘professar Cristo’, independente da cor de sua batina, paramento, ritual, cor, casta, credo, corrente… fará parte da religiosidade futura que se chamará fraternidade. Caridade e fraternidade são os grandes imunizantes contra o orgulho que teima em nos aniquilar e imobilizar-nos as tarefas. Enquanto que a fraternidade é o conveniente consórcio de talentos a serviço de uma comunidade, a caridade é nossa quota de retribuição aos consorciados, mormente aos menos aquinhoados de possibilidades materiais, morais e intelectuais.

Nossas fala, escrita, ações e trabalhos, só terão validade quando se aproximarem ao máximo de decorrente vivência. A profissão religiosa é irrelevante e não representa nenhum empecilho se a intenção for a de servir constantemente. Ou André Luiz não teria, costumeiramente, um padre em sua equipe de socorro espiritual às regiões dos mais necessitados! Ou Yacouba seria estigmatizado não por ser negro, mas por ser muçulmano, estes tão execrados na história dos nossos dias.

Nossas iguarias, lar, bem estar, inteligência, autoridade… estão todos ancorados por confrades dedicados que diuturnamente por nós se devotam. Todo retorno em forma de caridade e bem querença a eles retribuídos, nos vacinará contra o egoísmo e homologará nossas sociedades verdadeiras. Quando as aldeias vizinhas de Yacouba se deram de conta que o missionário estava no caminho certo e obstinado às melhores intenções possíveis, ou quando deixaram de taxá-lo de louco, a ele se uniram e, dentro de sua técnica, passaram a plantar mais, a colher mais e a terem alimento mais farto. Porque o missionário, aquele banhado pela luz espiritual de seu Governador também é um influenciador em potencial; também é o grande agente de contágio do bem.

Quando Emmanuel nos dá o significado de artista, nos perguntamos como os vemos, em nosso meio, no dia a dia e se os vemos? Poderão ser todos aqueles que, reconhecendo o exato potencial de suas habilidades, – nem mais, nem menos – as desenvolvem dentro também de uma luz espiritual, ou realizam o mais além para que, na forma de serviço, promovam soluções, reflexões, instruções, consolações… todas essas ao nosso alcance em maior ou menor escala!

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“Se você ficar em seu próprio cantinho, todo o seu conhecimento não tem qualquer utilidade para a humanidade”, diria em sua simplicidade Yacouba Sawadogo, ao demonstrar consciência de sua responsabilidade e dando-nos a entender que ele, fugindo ao convencionalismo terrestre, e embora sem a pretensão de ser o grande missionário das idéias, não desejou nunca desertar da responsabilidade de, exatamente dentro de seu patamar evolutivo, colaborar com as soluções que estiveram ao seu alcance e façam já parte de seu acervo de artista, missionário e profeta.

Arte é aquilo que fica: Passam-se anos, séculos e a boa música será executada; a tela e seu pintor serão cobiçados; o poeta será recitado; o ator será aclamado; o pesquisador será reconhecido; o servidor será imortalizado; profecias e profetas ecoarão; e o missionário será venerado…

“Yacouba sozinho teve mais impacto no combate à desertificação do que todos os recursos nacionais e internacionais combinados.” (Dr. Chris Reij, Vrije University of Amsterdam).

Bibliografia:

1. Baseado no documentário de Mark Dodd (2010), O homem que parou o deserto;

2. Xavier, Francisco Cândido, ditado por Emmanuel, O Consolador, questão 161, 29ª edição da FEB; e

3 e 4. Idem, questão 162 – (Outono de 2015).

Pub RIE Jul/2015

generosidade x2

Considerando que nenhum feito, sentimento ou pensamento passam despercebidos neste sistema de humanidade interdependente do qual fazemos parte, o mundo onde moramos depende de nossa colaboração. Todos [nós] temos que contribuir; ninguém está livre do devotamento à família, amigos e desconhecidos.

Foi sempre assim: O Planeta sempre contou e sempre contará com a generosidade de seus filhos, com seus feitos, sentimentos, pensamentos, criatividade, ousadias para uma evolução individual, grupal e planetária. Os devotados de hoje e possuidores de uma maior evolução são os mesmos que, na Idade da Pedra (3.500 a.C.), ainda rudes, mas colaboradores juntavam o ‘combustível’ para aquecer e iluminar suas famílias nas noites frias da Pré-História, lhes proviam segurança e desenvolviam outros atos generosos documentados em imagens e inscrições encontradas por pesquisadores…

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A generosidade é tão inata quanto as demais virtudes com as quais a Divindade brindou seus filhos. Ninguém fica generoso num estalar de dedos, mas é uma nobreza que se cultiva ao longo de vivências e que em algum momento, acompanhando a evolução, ficará madura na forma de devotamento ao semelhante, próximo ou distante. Ela é treinada no lar para se irradiar a pessoas ‘desconhecidas’.

Como, quanto e quando doar até reconheço ser um tanto complicado. Quanto a não se envolver emocionalmente com o beneficiado, variará de indivíduo para indivíduo. Já nem me refiro à frieza desse tipo de contato, pois quem é benevolente dificilmente será frio, mas há indivíduos que sempre se envolverão mais ante as penúrias materiais ou morais alheias.

Embora sabendo que não se deva carregar a cruz pelos outros ou pelo mundo, sempre haverá aqueles fatos que tocarão mais as pessoas que desejarão ser um pouco Simão Cireneu em suas vidas. Até porque, para ser solidário há que se ‘martirizar’ momentos que muitas vezes seriam de total lazer.

Uma coisa é certa: A intensidade de meu envolvimento ou o como, quanto e quando me devotar é infinitamente secundária comparada ao ato em si de generosidade. Generosidade só não poderá ser comparada a todos os seus antônimos, sovinice, indiferença, menosprezo, mesquinhez, avareza, apego… e todo um  séquito maldoso.

Se, num futuro próximo e como já orientado por Hammed nesta ou em outras obras, a religião do futuro será a fraternidade e que amar será tão simples quanto respirar ou beber em fonte translúcida, a generosidade estará no mesmo ‘pacote’, ou as pessoas generosas são criaturas que progrediram, uma vez que (…) já lutaram outrora e triunfaram. (…) Deve-se honrá-las, como velhos guerreiros que conquistaram suas posições. (Questão 894).

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Tal qual uma corrente do bem em círculo vicioso, toda a generosidade fornecida aos planetários influenciará diretamente no Planeta que por sua vez beneficiará os primeiros que a desenvolveram.

Todas as considerações aqui já feitas anteriormente ao ódio e ao amor, também serão válidas para o desdém e a generosidade: Do mais vil ao mais sublime há todo um percurso evolucional.

Tal percurso mostrará desde uma generosidade embrionária e imanente, passando pela rudimentar até chegar quase à sublime ou a generosidade dos grandes missionários.

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Generosidade, pag. 193 de Os prazeres da alma, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Boa Nova) – (Outono de 2013).