Posts Tagged ‘Dez mandamentos’

De tempos em tempos, o Altíssimo envia à sua humanidade, espíritos elevadíssimos para renovar os conceitos de Suas informações, apresentando-as a nós, suas criaturas, dentro da lógica de um Pai cheio de preocupações e anseios.

Moisés fez o possível em sua época: Conduziu através do deserto um povo sofrido, perseguido e prestes a entrar na contramão da fé erigindo bezerros de ouro; Deus dita ao grande líder códigos de bem proceder e que seriam úteis, até que a má versação os desgastassem.

Jesus, do ano zero ao trinta e três da era cristã, se apercebe, então, que essas tábuas da lei estavam necessitando de um restauro… Que a psicografia de Moisés, ora bolorenta, precisaria ser lixada e envernizada com o pigmento da simplificação: Se o decálogo fosse reduzido a amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, para os filhos de um Pai Amoroso o amor seria também o suficiente, ou seja, notava-se haver algo supérfluo ou de limitada importância no contexto dos dez mandamentos.

Com Kardec, em meados do século dezenove não foi muito diferente… Todos os ensinamentos que o mestre já havia simplificado tendiam a enxovalhar-se ante as idéias deformadas de uma igreja que inquiria e queimava em nome da santidade, totalmente na direção oposta dos ensinos do Rabi que era doce como um favo de mel. Nosso ilustre codificador torna mínimo o máximo: Fora da caridade não há salvação, ou seja, fora de nossa compaixão, complacência, benevolência e todos os adjetivos do gênero que quisermos utilizar, não estaremos no circuito de Deus ou dentro de Seus anseios para conosco.

Jesus torna-se então – à sua época e para a posteridade – o melhor intérprete das vontades do Pai a nosso respeito ou o que melhor decodificaria esses Divinos desejos. A idéia de um Deus bravo, vingador e justiceiro da era mosaísta estaria por Ele sendo desmascarada e daria lugar à de um Pai cheio de solicitude e zelo para com os seus filhos.

A preocupação do mestre seria então mostrar uma nova faceta desse Pai, a real intenção de seus preceitos, desagravando-o em uma série de ocasiões onde os mandamentos estariam sendo mal interpretados:

  • Quando orardes, dizei Pai Nosso… Jesus não filosofava em praça pública a respeito dos superlativos atributos de Deus. Imputava-nos, porém, responsabilidades – e muitas – quando nos dava a entender que éramos uma família universal e que no amar essa família, caminhar com ela e compartilhar-lhe os problemas, estaria implícito amar a Deus sobre todas as coisas. Que decodificação simplificada e fantástica!
  • É lícito curar no sábado? Qual de vós não tiraria sua ovelha da cova, mesmo sendo sábado? O sábado foi feito para o homem e não este para o sábado… – O amor, a cura, o socorro teriam, para Jesus, prioridade sobre o sábado; com estas citações, Guardar os domingos e festas passaria pois  a ser repaginado pelo Mestre dos Socorros;
  • Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Jesus não era, em hipótese nenhuma um filho nem um irmão desamoroso… Tal característica não pertenceria a espírito tão superior; desejava, entretanto com tal questionamento, evidenciar que honrar pai e mãe é algo relacionado a uma família mais universal e não necessariamente à consangüínea; o conceito de família para Jesus estava atrelado em fazer as vontades do Pai, o Grande Chefe da Família;
  • Mulher, se não ficou ninguém para te condenar, Eu, tampouco… Mas vai e não peques mais. O pecado ou a má vida de Madalena – porque transitórios -, não permitiam a Jesus estabelecer para ela uma identidade, mas seu arrependimento, porque incontestável, sim! Era essa a complacente decodificação que o Mestre faria para o sexto preceito do decálogo moisaico, não pecar contra a castidade;
  • Zaqueu desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa…  Mas como? O Mestre irá alojar-se na casa de um usurpador do povo e que lhes tirava mais que o necessário? Jesus continuaria, aqui, entreverado com pessoa que, supostamente, infringia o mandamento não furtar; Só não sabiam os maledicentes que este homem tinha grande curiosidade sobre o Mestre e desejava mudar de vida; analisava aqui Jesus, novamente, a transitoriedade da culpa;
  •  Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno… Fariseu é um hipócrita honesto, porque intencional; já o seareiro (trabalhador, militante) hipócrita é um fariseu desonesto, porque dissimulado. Em muitas situações, Jesus se autodesagravaria contra os ataques dos falsos testemunhos impetrados por seus compatriotas com segundas intenções. De mais a mais, a maledicência é um punhal pelas costas, pois sempre é sorrateira e dissimulada;
  • Em várias situações Cristo afirmaria que Seu reino não era deste mundo. Bem entendido deixava, então que se os bens terrenos não eram os mais importantes, muito menos os pertences alheios o seriam. Em preocupar-se com as coisas do Alto ou da Vida Futura, completar-se-ia a recomposição do último mandamento do moiseísmo.

Se as tábuas de Moisés – Manual de ética do Pai para a humanidade – nos chegaram outrora, original e totalmente codificadas, tivemos um Divino Rabi que as decodificou simplificando, dessa forma, os amorosos anseios que o Criador tinha a nosso respeito.

(Início da primavera de 2011).

Pub O Clarim, Out/2012

Como tantos outros instrumentos, utensílios, documentos, que passam no decorrer da história por aperfeiçoamentos, tive minha primeira versão lá pelos idos de 1300 anos a.C.

Foi bem ao tempo do êxodo, justo pela permissividade dos viajores hebreus que saíam do exílio Egípcio rumo à Pátria Prometida de Canaã. Escrito em duas páginas ou tábuas de pedra, eu ditava regras de ‘bons modos’ para com Deus e para os homens entre si, que os orientaria em sua saga.

Ante o bezerro de ouro erigido no deserto, os murmúrios de desconfianças, as contendas fratricidas, os adultérios… obriguei-me a estabelecer um código de bons procederes para que os afoitos viajantes norteassem seus deveres.

Dessa forma, lá estavam prescritos em minhas duas páginas e esculpidos em números romanos todos os dez bons procederes… Iniciavam com os deveres para com Deus, passavam por não roubar e não matar e culminavam com não cobiçar as coisas alheias. Oferecia-lhes, assim, meu passaporte para uma feliz chegada à Pátria Prometida.

É bem verdade que o grande psicógrafo de minhas laudas, Moisés, não chegou à Terra Prometida, mas sua descendência, sim, e considero-me um privilegiado de lhes ter servido de ponte para uma viagem de quarenta anos.

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Passados pouco mais de treze séculos, um Jovem Messias, doce como um favo de mel, e fiel depositário dos anseios do Criador para com suas criaturas, resolveu dar-me uma nova roupagem… Lembram quando disse que os utensílios evoluem com passar dos tempos? Pois bem, o Divino Rabi resolveu reformular-me, simplificando meu decálogo para somente dois mandamentos.

Reduzindo-me a quatro ou cinco linhas, o Sábio Nazareno recomendava-me que para ser eficiente junto aos viandantes, eu deveria prescrever que os homens amassem a Deus e se amassem! É, meu amigo, simplesmente se amassem, se é que amar é simples! Em se amando, como gostariam de ser amados, pressupostamente não estariam cometendo despautérios, cumpririam o decálogo mosaico e estariam amando a Deus.

Sábio o Rabi que me deixou mais compacto. Após advertir-me que não tinha vindo para tirar-me a autoridade que sempre tive, ou que não viera revogar a Lei, mas dar-me um ‘lustro’ novo, meu Divino Designer retornou precocemente à ‘sua Canaã’, pois ninguém melhor do que Ele cumpriu à risca meus códigos, sem retirar-lhe uma única vírgula, um único ‘iota’ ou um só til.

E eu? Bem eu vou monologando contigo, continuando minha peregrinação, e servindo aos de boa vontade que desejam Viagens Superiores…

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Em meados do século XIX, os abusos contra meus preceitos, haviam chegado ao ápice ou à ‘corte’, tiara, cúpula. Confundiram tudo os ditos dignitários e depositários dos suaves conselhos em mim retocados e simplificados pelo Mestre. Rebaixaram meus viajores a andarilhos, bruxos, heréticos e apóstatas submetendo-os aos humilhantes autos-de-fé a serviço da santa inquisição… Viajava com eles e não os via bruxos, mas videntes de boas causas; nem eram apóstatas, mas os que desejavam uma fé raciocinada; e tão pouco eram heréticos, mas samaritanos…

Tais heróis, ante a covardia do clero não precisaram nem deste passaporte – ou precisaram? – para iniciarem uma viagem que passaria pelos mais humilhantes ultrajes e culminaria no apocalipse de seus holocaustos.

Com um basta, Hippolyte Léon Denizard Rivail, professor Rivail, ou ao ‘simplificar-se’ para Allan Kardec, também simplificou o que já era simples, pois de dois mandamentos, o ‘gráfico’ de Lion imprimiria neste passaporte que te fala: “Fora da caridade não há salvação”. Volto a lhes afirmar, meus amigos, se os objetos evoluem com o transcurso dos tempos esta foi a evolução mais simplificada que eu receberia…

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O que mais faltaria a este viajor te falar para proveito de tuas andanças e evoluções? Quando tudo já foi simplificado e dito, de Moisés a Kardec, talvez desejasse concluir com o que há de mais difícil neste Código de Passaporte à Canaã Espiritual; coisas que o Mestre já falou, mas que sempre é bom lembrar: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aqueles que vos odeiam e orai por aqueles que vos perseguem”. Ou, tornando fácil o difícil… Fora do perdão não há salvação!

À tua disposição… Apanha-me e viaja!

(Inverno de 2012).