Posts Tagged ‘Fora da caridade não há salvação’

Março! Matricula-te já!

02-Yousuf-Karsh-Madre-Tereza

Como tantos outros instrumentos, utensílios, documentos, que passam no decorrer da história por aperfeiçoamentos, tive minha primeira versão lá pelos idos de 1300 anos a.C.

Foi bem ao tempo do êxodo, justo pela permissividade dos viajores hebreus que saíam do exílio Egípcio rumo à Pátria Prometida de Canaã. Escrito em duas páginas ou tábuas de pedra, eu ditava regras de ‘bons modos’ para com Deus e para os homens entre si, que os orientaria em sua saga.

Ante o bezerro de ouro erigido no deserto, os murmúrios de desconfianças, as contendas fratricidas, os adultérios… obriguei-me a estabelecer um código de bons procederes para que os afoitos viajantes norteassem seus deveres.

Dessa forma, lá estavam prescritos em minhas duas páginas e esculpidos em números romanos todos os dez bons procederes… Iniciavam com os deveres para com Deus, passavam por não roubar e não matar e culminavam com não cobiçar as coisas alheias. Oferecia-lhes, assim, meu passaporte para uma feliz chegada à Pátria Prometida.

É bem verdade que o grande psicógrafo de minhas laudas, Moisés, não chegou à Terra Prometida, mas sua descendência, sim, e considero-me um privilegiado de lhes ter servido de ponte para uma viagem de quarenta anos.

* * *

Passados pouco mais de treze séculos, um Jovem Messias, doce como um favo de mel, e fiel depositário dos anseios do Criador para com suas criaturas, resolveu dar-me uma nova roupagem… Lembram quando disse que os utensílios evoluem com passar dos tempos? Pois bem, o Divino Rabi resolveu reformular-me, simplificando meu decálogo para somente dois mandamentos.

Reduzindo-me a quatro ou cinco linhas, o Sábio Nazareno recomendava-me que para ser eficiente junto aos viandantes, eu deveria prescrever que os homens amassem a Deus e se amassem! É, meu amigo, simplesmente se amassem, se é que amar é simples! Em se amando, como gostariam de ser amados, pressupostamente não estariam cometendo despautérios, cumpririam o decálogo mosaico e estariam amando a Deus.

Sábio o Rabi que me deixou mais compacto. Após advertir-me que não tinha vindo para tirar-me a autoridade que sempre tive, ou que não viera revogar a Lei, mas dar-me um ‘lustro’ novo, meu Divino Designer retornou precocemente à ‘sua Canaã’, pois ninguém melhor do que Ele cumpriu à risca meus códigos, sem retirar-lhe uma única vírgula, um único ‘iota’ ou um só til.

E eu? Bem eu vou monologando contigo, continuando minha peregrinação, e servindo aos de boa vontade que desejam Viagens Superiores…

* * *

Em meados do século XIX, os abusos contra meus preceitos, haviam chegado ao ápice ou à ‘corte’, tiara, cúpula. Confundiram tudo os ditos dignitários e depositários dos suaves conselhos em mim retocados e simplificados pelo Mestre. Rebaixaram meus viajores a andarilhos, bruxos, heréticos e apóstatas submetendo-os aos humilhantes autos-de-fé a serviço da santa inquisição… Viajava com eles e não os via bruxos, mas videntes de boas causas; nem eram apóstatas, mas os que desejavam uma fé raciocinada; e tão pouco eram heréticos, mas samaritanos…

Tais heróis, ante a covardia do clero não precisaram nem deste passaporte – ou precisaram? – para iniciarem uma viagem que passaria pelos mais humilhantes ultrajes e culminaria no apocalipse de seus holocaustos.

Com um basta, Hippolyte Léon Denizard Rivail, professor Rivail, ou ao ‘simplificar-se’ para Allan Kardec, também simplificou o que já era simples, pois de dois mandamentos, o ‘gráfico’ de Lion imprimiria neste passaporte que te fala: “Fora da caridade não há salvação”. Volto a lhes afirmar, meus amigos, se os objetos evoluem com o transcurso dos tempos esta foi a evolução mais simplificada que eu receberia…

* * *

O que mais faltaria a este viajor te falar para proveito de tuas andanças e evoluções? Quando tudo já foi simplificado e dito, de Moisés a Kardec, talvez desejasse concluir com o que há de mais difícil neste Código de Passaporte à Canaã Espiritual; coisas que o Mestre já falou, mas que sempre é bom lembrar: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aqueles que vos odeiam e orai por aqueles que vos perseguem”. Ou, tornando fácil o difícil… Fora do perdão não há salvação!

À tua disposição… Apanha-me e viaja!

(Inverno de 2012).

É muito provável que São Paulo, o Apóstolo dos Gentios, desejasse se referir aos seus ‘demônios’ mais íntimos quando, aos cristãos de Corinto, proclama uma de suas máximas mais significativas: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (I Coríntios, VI, 12).

Refere-se aqui o apóstolo a uma série de moléstias morais que, me utilizando de meu livre arbítrio, me são permitidas, mas de sua inconveniência justamente por interceptarem o fluxo da seiva aos demais ramos da videira. Toda vez, portanto que eu estiver ferindo a caridade, meu ato, apesar de permitido será um ilícito.

Dessa forma, para medir a conveniência do meu ato, precisarei aplicar-lhe o ‘caridômetro’, ou verificar se está dentro dos parâmetros da máxima de Kardec “fora da caridade não há salvação”:

  • Todo o meu olhar que fulminar por fulminar meu irmão poderá estar totalmente fora de parâmetros caridosos;
  • De posse de meus dois ouvidos será sempre mais sensato que, caridosamente, mais ouça do que fale com minha única boca;
  • Minha palavra quando monopolizar o ambiente ou funcionar como lâmina destrutiva certamente estará fora dos aludidos parâmetros; e
  • Meus gestos poderão falar mais que minhas palavras, fulminarem mais que meu olhar ou ferir mais que minha insensibilidade… Importante não colocá-los na contra mão da caridade.

Não tenho dúvidas que a diretriz segura me vem ‘de cima’ na aferição de meu caridômetro: De Jesus meigo no olhar, paciente no ouvir, assertivo no falar, delicado e amoroso em seus gestos; de São Paulo que me exorta sobre as coisas que não me convém; e dos Auxiliares de Kardec que me impõem a caridade não como um meio de salvação, mas como o único!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Caridade sempre, pg. 130 de Recados do meu coração de José Carlos De Lucca/Bezerra de Menezes, Ed. InteLítera) – (Inverno de 2012).

Chico Xavier dizia que quando estava muito deprimido, dirigia-se a favelas… Voltava de lá reanimado… Não estaria Chico tratando ‘sua’ depressão?

Se for verdade que ‘a caridade começa em casa’, amar a si mesmo – desde que não seja narcisismo – é o elixir da longa vida. Há necessidade que se tome desse ‘elixir’ para se ter saúde e dedicar-se à saúde alheia…

Se tudo aquilo que eu não fizer ao pequenino, não o farei também ao Mestre e se “tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus”, todas as minhas atitudes insanas serão tal qual ‘dar um tiro no pé’, visto que ao me indispor com Cristo e com Deus, estarei renegando a ‘saúde própria’…

O primeiro passo na direção da reconciliação poderá aliviar minha gastrite… Para sua cura total será um ‘pulinho’!

Caridade não é ‘distração’ nem mercadoria de troca; seus proventos dificilmente serão pagos neste plano.

Será muita ingenuidade e até pretensão minha desejar e pensar que, em me engajando em lides Crísticas, como que num toque de mágica, minhas desventuras serão resolvidas.

Consolar um aflito poderá até não curar minha moléstia, mas me fará vê-la infinitamente menor que a do assistido.

Por menor que seja minha ação, se anônima e desinteressada, sempre terá efeito positivo.

Quando São Paulo me diz que a “caridade não suspeita mal”, é claro em afirmar que ela ‘também’ é endereçada a pessoas ‘suspeitas’. Quando me diz que a “caridade não é invejosa” é que há campo para ‘todos’ praticá-la e que necessitados não faltarão!

Se for verdade que grandes e pequenos Pensadores do Bem já discorreram sobre a caridade, também é verdade que todos os pequenos como os grandes atos serão contabilizados para a medição da escala evolutiva dos homens.

Todas as minhas falhas na prática da caridade, mais que me desanimar, deverão ser como a semente que morre para que a planta viceje.

Nada é absoluto na ‘teoria’ sobre caridade; já na sua ‘prática’, nada é relativo, mas de uso irrestrito!

Meus queridos, o Ministério da Saúde que adverte tantas coisas – algumas pífias, grosseiras – deveria observar que o bem, o amor, a solidariedade – ou a caridade -, sim, poderá curar muitas doenças, do lado ‘de lá’ e, principalmente, do lado ‘de cá’!

(Sintonia com o item 5 do cap. XV do ESE e 1ª Epístola de São Paulo aos Coríntios – Outono de 2012).