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Tomás de Torquemada (1420-1498), frade dominicano, foi o inquisidor-mor da Espanha à sua época. Cronistas de sua terra registraram que durante seu mandato apocalíptico, uns 2.200 autos-de-fé foram instaurados. ‘Castigo’ aplicado a heréticos e apóstatas, o auto-de-fé poderia compreender desde uma humilhação em praça pública com vestimentas de camponeses – ‘sambenitos’ – até a imolação na fogueira…

Quem me garante, porém, que na transição da idade média para a moderna não tenha sido eu o auxiliar do desventurado frei?! Servindo-lhe, talvez, como coroinha, sacristão ou, de turíbulo à mão, incensando a sua divindade, que ‘avalizava’ seus macabros rituais ‘acrísticos’; sim porque a divindade deveria ser-lhe particular… ‘atípica’ o era!

Quando São Paulo, dirigindo-se aos romanos (VII, 15) diz também a mim que “não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. Ora, se o faço, o que não quero, eu reconheço que a Lei é boa”, essa mesma Lei – escrita em minha consciência – me condena quando hoje ainda promovo todos os meus autos-de-fé nos pré-julgamentos fratricidas.

Quanta velocidade e maledicência nos pensamentos! Ao ler o Manual Evangélico, as demais obras Inspiradas ou outras obras edificantes, ‘endereço’ todas as admoestações neles contidas tão somente para inquirir desafetos que me vierem à lembrança; pensamentos sorrateiros e velozes os meus!

Quão agudas e cortantes as inquisições de minhas palavras! Quando as palavras estabelecem um “tribunal impiedoso de julgamento e crítica à vida dos outros”, estarei por elas estabelecendo minha particular inquisição. Palavras malevolentes são tais quais flechas ligeiras, penetrantes, doídas!

E a lâmina de meus atos? Lento para realizar coisas edificantes, porém o mais ágil dos espadachins na defesa de meu orgulho.

Indolente e covarde a minha omissão: Capaz de declinar um enunciado de dez itens, desde que sejam todos a meu favor, mas incapaz de lançar-me à única proposição que conta e que será por mim transportada em minha mala de viagem: a do Bem! Se por inércia eu tão somente não praticar nenhum mal, o ‘pecado’ da inércia já estarei cometendo…

É, meus amigos, Tomás de Torquemada, hoje recuperado pela Benevolência da Seqüência de Vidas, envergonhar-se-ia de todas as minhas veladas inquisições por pensamentos, palavras, atos e omissões…

Se por um lado minha rapidez utiliza a lente de aumento da lupa para alardear as fraquezas de Torquemada, próximos, distantes, desafetos… minha lentidão se utiliza do lado diminutivo da mesma lente para reconhecer minhas inquisições mais secretas.

O espelho que me satisfaz, talvez seja aquele que me deixa esguio e não o real, o que me mostra como sou!

Mas os tempos sucessivos são benevolentes… Torquemada que o diga!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Exigências incoerentes, pg. 143 de Conviver e melhorar de Francisco do Espírito Santo Neto/Batuíra, Ed. Boa Nova) – (Outono de 2012).

Há exatos 529 anos, Tomás de Torquemada, um frade da ordem dos dominicanos, era nomeado pelo Papa Sixto IV, inquisidor-geral de Espanha. O assombroso número de 2.200 autos-de-fé foi promovido por este inquisidor. Um auto-de-fé compreendia castigos a ditos hereges judeus e muçulmanos e poderia constar de um simples desfile com o tabardo – túnica usada por campesinos – até a imolação na fogueira.

É exatamente sobre este inquisidor que Carlos Baccelli e Dr. Inácio Ferreira se reportam na obra Sob as cinzas do tempo. Em período de férias – que luxo, férias de aposentado! – me aplico em ler um ou dois romances… Pois este valeu à pena cada página. Personagens importantes como Maria Modesto Cravo, Inácio Ferreira, Manoel Roberto, Bittencourt Sampaio, Dr. Odilon Fernandes, Chico Xavier, Dr. Bezerra de Menezes,  D. Querubina – benzedeira – e o próprio Torquemada estão incluídos na saga em apreço.

Encanta-me a honestidade, a franqueza e até a exposição de nosso querido autor espiritual. Separei alguns fragmentos, a título de tira gosto, de passagens até hilárias de Dr. Inácio Ferreira, quando à frente de seu Hospital Psiquiátrico em Uberaba. Divirtam-se!

  • “… Eu era muito mais um espírita médico do que um médico espírita…” (pg. 76);
  • “O segredo para combater a depressão era não perder o senso de humor – eu galhofava o dia inteiro -. Curei muitos perturbados, mostrando-me mais perturbado que eles.” (pg. 95);
  • “… O apoio da família na recuperação de um doente psiquiátrico deveria ser um capítulo à parte na medicina.” (pg. 116);
  • “No espiritismo quem não foi padre ou freira, foi francês…” (pg. 135);
  • “Como dizia minha tataravó: ‘viúvo é quem morre’… Sempre fui contra… esse negócio de luto eterno… Senhoras, ainda jovens, trajadas de negro cultuando uma saudade de maridos que, com certeza, deveriam estar aprontando no Além – vivos ou mortos, os homens eram sempre os mesmos…” (pg. 204);
  • “Chegaram trazendo ovos e queijos e para mim, em especial, um rolo de fumo de corda tal, que, para qualquer outro fumante inveterado, daria para fumar uma vida inteira, mas para mim não.” (pg. 228);
  • “Lamento os companheiros médicos – lamento profundamente – que memorizam certos medicamentos e se põem a exercer a psiquiatria com uma caneta e um bloco…” (pg. 241).

Como vemos Dr. Inácio está aqui, também nesta obra exposto, fumante inveterado, encrenqueiro, mas realizando todo o bem possível; brabo, mas também bravo e misericordioso…

Quanto ao final… Leiam o romance: Forte, emocionante, surpreendente!

(Verão de 2011/12).