Posts Tagged ‘Perfeccionismo’

Meu orgulho mora na torre mais alta do castelo de minha vida.

Particularmente, tenho muita dificuldade em administrar e compreender o orgulho dos outros, pois o meu não permite.

Meu orgulho, em mirante espetacular só olha de cima para baixo e vê coisas e seres pequenos, insignificantes.

Meu orgulho possui um irmão gêmeo – chamado egoísmo – que mora com ele em seu prazeroso castelo.

Meu orgulho está sempre acompanhado da donzela vaidade que, caprichosa, sempre influi em suas atitudes.

Meu orgulho possui também outras companhias: a arrogância é uma balzaquiana que não se dobra; a soberba é quase sua irmã ou ao menos em muito se lhe parece. Há ainda outras jovens ou nem tanto que compõe o seu séqüito, como a presunção que lhe toma conta da agenda, o controlador na ‘pasta’ da hipocrisia e o perfeccionista ‘quase’ pudico.

Nas cercanias do castelo de meu orgulho – num ‘ladeirão’ – há um vilarejo onde moram personagens humildes e fraternos: meu orgulho não se relaciona muito bem com essa ‘estranha’ vizinhança.

Meu orgulho dita normas de bem proceder que, na verdade, só não conseguem normatizar a sua vida.

Meu orgulho tem carro bom e quase que intocável: não é desses utilitários que carregam pessoas necessitadas por ruas esburacadas a qualquer hora da noite; ‘ambulância’, nem pensar!

Meu orgulho doutor em regras de trânsito é, na maioria das vezes, inflexível, não admitindo exceções, tão pouco falhas alheias.

Meu orgulho, quando confronta guardadores, catadores, frentistas, lavadores… os considera todos subempregados e servis acomodados. Moedas para eles só as pequeninas; a que possui a ‘República na cara’, nem pensar! Uma palavra boa é perda de tempo com esses ‘desocupados.’

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Perguntamo-nos, então, como encaixar a humildade em a côrte do orgulho? Todos nós sabemos que o mais salutar será depormos o monarca!…

(Verão de 2012; reescrito em 9 de abril; outono de 2018).

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“Estamos em reunião. Não bata. Não entre” e “Entre sem bater. Em silêncio”. Estas são as recomendações escritas em verso e anverso numa placa que existe para ser dependurado na porta da Casa Espírita Recanto de Luz, em determinadas atividades… Sempre que alguém a ‘colocava’ um pouco desnivelada, do meu banco já ‘ficava em cólicas’, desejando me levantar e aprumá-la. Hoje, sempre que me é permitido eu mesmo o faço, só que, para tentar driblar meu TOC… a coloco o mais desnivelado possível…

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“Sede, pois, vós outros, perfeitos, como o vosso Pai Celestial é perfeito”. A expressão do Mestre talvez seja muito mais profunda que se possa imaginar: Como o meu Pai é perfeito, assim me deseja. Nunca disse, entretanto, Jesus, que o Pai me queria perfeccionista, como portador de TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo – ou de outras bizarrices.

Naturalmente, – e ninguém mais natural que o Pai – não me desejará ver super isto ou super aquilo, porque Super é Ele e o caminho que leva à perfeição é lento.

Todas as tendências perfeccionistas são doentias ou instrumentos dos quais me utilizo para me auto prevenir ou revelar que em minha meninice, juventude ou em vivências anteriores fui muito exigido para realizar as coisas corretamente.

O perfeccionista, ao não admitir tropeços em suas mínimas atitudes, revela-se uma pessoa antinatural, pois quem, neste Planeta, não estará sujeito a equívocos? Ou seja, e como me advertiria Hammed, o transtorno dos perfeccionistas é não se aceitarem como espíritos falíveis, não aceitando também os outros nessa mesma condição.

Se, em determinado dia, eu me permitisse ter tanta obsessão ou compulsão na perseguição de determinadas virtudes, como as emprego em algumas manias, já poderia estar bem mais próximo do início de minha evolução.

Aos que riram da abertura desta crônica, perguntaria: Levante o dedo quem não possui uma determinada compulsão, obsessão, mania? Certamente todos recolherão seu dedo – ou suas pedras -, pois todos os tipos de TOC, que se venha a desenvolver são próprios deste Planeta de Provas e Expiações. É muito provável que, ao desenvolver qualquer tipo de mania – arrumação, limpeza, ordenação… – eu esteja procurando um refúgio para o meu orgulho ou receoso de ser repreendido, observado, ‘ficar falado’. Eis aqui uma necessidade de proteção.

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Mas, o que dirá a visita ao chegar à minha casa:

  • Se toda a grama não estiver bem cortada e todas as folhas recolhidas?
  • E se a pintura da casa não estiver impecável?
  • E se a caixa de gordura estiver transbordando?
  • E se toda a cozinha estiver limpinha, mas o fogão apresentar algumas marcas de gordura?
  • E se o banheiro não estiver bem aromatizado?
  • E se o carro… – e aí a coisa pega! Se houver uma ‘duna’ dentro dele, o que irá pensar? E se ele, então, estiver ‘meio’ sujo, ou ‘meio’ limpo, que horror! Meu orgulho não permitirá isso; precisará estar ‘muito’ limpo!

Será que fechei o carro? Será que dei as seis voltas na porta? E quando for acometido de insônia por descobrir que um de meus móveis poderá servir de ‘lousa’, de tanto pó que possui… Aí, meu amigo, é TOC na certa!

Todas essas anomalias compulsivas, as citadas ou deixadas de citar são ecos de um passado mais ou menos remoto no qual passei por inúmeras reprovações. E não desejo ser reprovado novamente, pois meu orgulho não suportaria!

Em hipótese nenhuma, desejo aqui enfraquecer a vontade de cada um em aperfeiçoar-se e sim tentar barrar – em mim primeiro – e nos demais, desejos de perfeição presunçosa, visto que a perfeição é a resultante de uma evolução lenta e gradual.

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Ao me declarar compulsivo por perfeição, corro o risco de embaraçar minha evolução, pois estarei testemunhando ao “Perfeito Pai Celestial” a maior prova de meu orgulho.

Sintonia e expressões em itálico são do cap. Perfeição versus perfeccionismo, pag. 219 de Renovando atitudes, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Nova Era) – Imagens: 1. Perfeição; 2. Perfeccionismo – (Verão de 2013). 

Cair, levantar, prosseguir… Errar, acertar, continuar, é infinitivo impessoal próprio deste Planeta onde vivo.

Toda a vez que eu não conseguir bem conjugar e conviver com esses companheiros que carrego em meu embornal, estarei, pretensiosamente, querendo ser perfeito de uma hora para outra e ser esmagado pelo carcereiro cruel do perfeccionismo, instalado nos porões de meu orgulho e egoísmo.

Apesar de ser perfectível – trazer inato o gérmen da perfeição -, devo compreender que até lá levarei muito tempo, visto minha jornada evolutiva estar com o trem bem atrasado.

 Qual o terráqueo em juízo perfeito que gosta de conviver com um perfeccionista? Se nem o perfeccionista ‘se agüenta’, quem o fará? O perfeccionista não é suficiente nem para ele mesmo…

Compreender que nesta vida eu sou um mero ensaiante, coadjuvante, figurante, sempre será saudável ao percorrer os tortuosos e empoeirados caminhos rumo ao ‘estrelato’…

Quem desejar conviver e compactuar com perfeccionistas, deverá atrelar-se ao orgulho, egoísmo, vaidade, pois:

  • O perfeccionista não possui um lápis, mas vários, todos bem apontados e se um deles teimar em quebrar a ponta, já não servirá;
  • O perfeccionista não se contenta com uma idéia, simples, compacta… Precisa de várias;
  • O perfeccionista não só junta 100% das folhas caídas… Fica de ‘plantão’ até que caiam mais algumas;
  • O perfeccionista não delega e nem descentraliza… Basta-se, se sustenta!
  • O perfeccionista confere, faz check-in intermináveis e submete parceiros a cotejos enormes;
  • O perfeccionista é metódico, rotineiro, organizadamente dependente e desconfiado de si mesmo… Depender dos outros? Heresia!

Se perceberam que ‘comecei a entregar o ouro’, darei o primeiro passo… Ajudem-me a precisar de suas ajudas, para tentar me livrar deste carcereiro cruel.     

Um abraço e muito obrigado!

(A sintonia é do capítulo O calvário da indecisão, pg. 57 de Conviver e melhorar de Francisco do Espírito Santo Neto/Lourdes Catherine, Ed. Boa Nova) – (Outono de 2012).