Posts Tagged ‘Reconciliação’

Com o nome de Entrudo, já no século XVI os portugueses ‘introduziram’ no Brasil o costume de brincar no período de carnaval, este muito antes (600 a 550 a.C.) originário da Grécia. Os bailes de máscaras, bailes à fantasia ou bals masqués (disfarça), foram os eventos precursores do carnaval moderno no Brasil. No final da década de 1830, os primeiros bailes de máscaras tiveram lugar no Rio de Janeiro onde só era permitida a entrada de duques, rainhas, princesas, príncipes, condes, condessas, duquesas, etc.

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“… O Espírito encarnado perde a lembrança de seu passado [porque] o homem não pode nem deve tudo saber. Deus o quer assim em sua sabedoria.” (Questão 392 de O Livro dos Espíritos). “… Se tivéssemos a lembrança de nossos atos pessoais anteriores, teríamos igualmente dos atos dos outros e esse conhecimento poderia ter os mais deploráveis efeitos sobre as relações sociais”. (Idem, nota à questão 394).

O Pai em sua Infinita Sabedoria e principalmente Bondade, contempla a sua humanidade, encarnada num ainda Planeta de Provas e Expiações, com uma grande ‘disfarça’ ou a bals masqués onde são convidados a confraternizarem – ‘dançarem’, se acertarem, se comporem… – indivíduos Espíritos que outrora poderão tanto haver se agredido muito como também terem se amado muito!

É possível que o ‘véu do esquecimento’ ou ‘esquecimento do passado’ seja o grande baile de máscaras promovido pelo Pai e que possibilita a antigos e ora disfarçados desafetos, por necessidade encobrirem suas diferenças, sem, no entanto, deixarem de revelar suas faces a pretéritos e amorosos afetos.

Sem o véu do esquecimento se estabeleceria o caos nas famílias, na sociedade, no trabalho. Digladiar-se-iam filhos com pais, cidadão com cidadão, patrões com empregados… Ninguém duvida que nesses ambientes estejam reunidos hoje, desde os mais cascudos e ásperos relacionamentos até os mais divinais e amorosos em regozijo.

Deus em sua soberania, não deseja que os homens possam e devam tudo saber, e apela para que eles através de suas consciências percebam, consultando as evidências que irão se apresentando, que tipos de saldo/débitos possuem com os que agora convivem.

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Diversamente do Entrudo este necessário baile de máscaras não é proporcionado tão somente à burguesia, mas a irmãos de casta única, filhos de um mesmo, Bondoso e Amoroso Pai que deseja ver seus filhos acertando suas diferenças, sem deixar de promover a satisfação dos afeiçoados.

Entrar no Ritmo Divino, se acertar, se recompor, se renovar… Eis a necessidade do baile de máscaras promovido pela Divindade através do ‘véu do esquecimento’…

(Introdução: Wikipédia, a enciclopédia livre – Inverno de 2013).

Quem atura um fiambre ‘bafiado’, rançoso? O passado poderá ser que nem o quitute que ontem era o ideal, mas servia tão somente para ontem… Para hoje poderá não servir mais.

Assim como é uma arte reescrever velhos temas, utilizando-se de idéias novas, também o é saber viver coisas novas em cima de todos os ranços do passado, visando preparar um futuro menos penoso.

Assim pensando, minha Divindade me cobriu com o mais absoluto véu do esquecimento e me equipou com o semáforo da consciência – desconfiômetro, tendências instintivas, insights, evidências… para que, atendendo à diversidade de suas luzes, da advertência, de retenção ou liberdade eu recomeçasse, a cada dia, a escrever uma página nova na minha evolução…

De que adiantaria lembrar-me de todos os pretéritos ranços se estes nada contribuírem à minha alforria moral e ainda despertarem em mim rancores e mágoas a pessoas ou de pessoas muito próximas a mim?

Não há necessidade que o meu Deus me revele que o vizinho difícil que tenho, o filho problema, o parceiro que me incomoda, a operadora que me enlouquece… sejam os mesmos para com os quais não fui fácil, causei problemas, incomodei ou enlouqueci em meu passado rançoso… Todos eles, evidências desses maus efeitos, apontar-me-ão todas as causas que o meu Bom Pai julgou conveniente me fazer esquecer.

Lembrar de todos esses ranços seria promover a desforra, desafios a antigos desafetos, a mágoas reprimidas… Desarticula Deus com o véu distraído, todas as altercações, ódios adiados, duelos doídos, por ninguém vencidos e tão pouco concluídos…

Porque isso devia ser útil o meu Deus – o teu Deus – providenciou para que os meus – e os teus – atos de um passado encardido me passassem despercebidos e que por santa e divina providência muitas coisas para mim – e para ti – fosse omitido…

Este tipo de entorpecimento é, sem dúvida, o maior e mais divino antídoto contra todos os ranços do passado!

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Que dádiva, meu Pai, poder adormecer sobre meus cacos e não me machucar. Acordar e poder abraçar minha amada e ter suaves lembranças de todos os meus, sem as restrições que todos os meus pretéritos mal feitos me imporiam…

…Esta é só uma amostra do que o véu do esquecimento pode fazer por mim e por todos aqueles que eu tenha machucado!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Vantagens do esquecimento, pag. 137 de Renovando atitudes, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Nova Era) – (Primavera de 2012). 

O Mestre das Misericórdias nunca afirmou para mim, tão pouco a ninguém que perdoar seria fácil. Mesmo assim, deixou-me uma série de rotas, todas metaforizadas, a respeito do ‘quesito’…

Quesito? Não! Quesito é só um ponto… O Mestre deixou verdadeiras teses, tratados, estudos avançados sobre a matéria; sem meias palavras, chegou a dizer que essa ‘matéria’ seria a prova inteira… Pois quem passasse nela, ‘passaria de ano’.

Ofensas são ‘sujeiradas’ que precisam ser recolhidas e depositadas no latão do perdão. Ofensas colocadas para debaixo do tapete comprometer-me-ão logo ali…

Perdoar setenta vezes sete, dar a outra face, conciliar-se a tempo com o adversário… E o Mestre foi declinando os textos. Figurados, como sempre!

Perdoar é me colocar num patamar superior; retirar os velhos móveis de meu orgulho interior, substituí-los pelos novos da humildade e compreensão. Somente após essa reciclagem, começarei a engatinhar na direção do perdão.

Perdão, sentimento nobre que só se retira de um coração renovado. Ah! E contemporizar a questão perdão é o mesmo que dar um tiro no pé. Jogar mágoas e rancores para debaixo do tapete é o mesmo que desejar curar uma ferida de fora para dentro… Imagina o organismo purulento que restará!

O que é apresentar a outra face se não mostrar o eu agora renovado? O que é reconciliar-se a tempo se não dar o primeiro passo na direção do desafeto? Depois do primeiro passo, meu amigo, ai a Vida Maior toma conta! E perdoar setenta vezes sete – aqui o Mestre fala em ‘linguagem’ matemática – não seria perdoar todas as vezes que for necessário, sem estabelecimento de quotas?

Revidar o tapa obscurecendo meu homem renovado, estabelecer quotas de perdão, esperar o primeiro passo dos outros é tão somente jogar para debaixo do tapete a oportunidade de reconciliar.

A salvação – destino compulsório de todo o filho de Deus – estará sempre adiada toda a vez que eu recolher o perdão para debaixo do tapete.

Perdoar, finalmente, não é “interditar a defesa”, mas “condenar a vingança”… Esta sim joga o perdão para debaixo do tapete!

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Lágrimas de decepção, pg. 109 de Conviver e melhorar de Francisco do Espírito Santo Neto/Lourdes Catherine, Ed. Boa Nova) – (Outono de 2012).

“Se estás, portanto, para fazer a tua oferta, diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta. Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto em prisão. Em verdade te digo: Dali não sairás antes de teres pago o último centavo”1

Em nosso convívio diário, quer seja no lar, no trabalho remunerado ou no voluntário, estaremos convivendo com pessoas mais ou menos próximas, mais ou menos afetuosas e a nossa oferta estará aí representada pela atividade que desenvolveremos, principalmente em se tratando da espontânea.

Nossas oblatas que aqui chamaremos de ofertas, para inserir-nos no contexto de Mateus, depositadas na Casa Espírita ou noutro segmento de nosso voluntariado, deveriam sempre estar precedidas de um culto aos desafetos: Uma rápida irradiação, um pedido de desculpas ou uma prece sincera endereçada àqueles que ainda não amamos tanto. Podemos ter a certeza que tais gestos, além de humildes e em consonância com a máxima de Jesus, ensetarão uma predisposição para que a Providência Divina se encarregue de um bom desfecho para esses desamores.

Como começaremos as diversas atividades específicas do altar da Casa Espírita se não nos sentimos perfeitamente reconciliados?

  • Como aspirar uma reconciliação com um próximo às vezes nem tão próximo se estamos longe de reconciliar-nos conosco mesmos, estorvando novas investidas em nossa recuperação?
  • Como iniciar uma reconciliação com um próximo distante, ante nossas asperezas com o cônjuge que está vinte e quatro horas ao nosso lado?
  • Como intermediar a caridade através do passe, ante nossa claudicância em resolver as pendências com nosso filho problema?
  • Como realizar nosso intercâmbio mediúnico, atendendo irmãozinhos que não vemos se ainda somos ásperos com aqueles que vemos?
  • Como adentrar numa sala de estudo para receber ou transmitir as lições de nosso Divino Professor se nas intervenções práticas que a vida nos cobra estamos muito aquém da média que o Mestre nos recomenda?

Urge, pois, nossa boa vontade para um acordo com nosso adversário! A reconciliação deverá se realizar enquanto estivermos em caminho com ele, senão correremos sérios riscos de ficar aprisionados à sua  faixa de vibração e esta poderá ser muito estreita e, ainda… Quando pagarmos o último centavo a inflação poderá estar altíssima!

De mais a mais, com que cara prosseguiremos a realizar nossas empreitadas amorosas, se não tornarmos efetivo o ditame do Mestre do Perdão, Reconciliar primeiro, depois ofertar?

(Subsídio: Mateus, V, 23-26).

(Verão de 2010/11, “já bem abaixo do meio”) – Pub. ‘O Clarim’, Jan 2012.