Posts Tagged ‘Reconhecimento’

“O desapontamento recebido com fervorosa coragem é trabalho de seleção do Senhor em nosso benefício.” (Emmanuel).

* * *

Escrevemos, também, para aproveitamento dos outros. É comum, entretanto, e porque nossos ouvidos são os mais próximos, dirigirmo-nos a nós próprios.

Hoje, de forma especial, quando estudamos expectativas, a qual Emmanuel aborda em forma inversa, como desapontamento, dirijo-me, exclusivamente, (e perdoem-me o entrevero pronominal) aos “meus ouvidos…”

Possuímos a disfarçada mania de nos preocuparmos com “deus e todo mundo.” Na verdade interpomos aos outros nossas interferências – o que é diferente de colaboração – para que deles possamos vir a cobrar algo; é a “moeda expectativa”, relacionada aos nossos mais diversos círculos:

Daquele amigo que julgamos haver nos traído a confiança: confiança essa por nós superestimada.

Dos que ombreiam conosco em trabalhos diversos e dos quais desejamos a perfeição.

De nosso cônjuge que talvez mantenhamos uma expectativa máxima. Aproveitando-nos do dia dos namorados hoje comemorado, muitas vezes o consideramos nossa propriedade: num primeiro instante ele é “a nossa namorada; ou o nosso namorado.” Mais tarde “a nossa noiva; ou o nosso noivo.” E, finalmente, num extremismo ela é “a nossa esposa”; ou “o nosso esposo.” Esquecemo-nos, por inteiro, da individualidade do Espírito; e que ele ou ela são, e tão somente, nossos parceiros, auxiliares e instrumentos de caminhada.

Quanto aos filhos, atingimos o exagero, expressando-nos: “filho é sempre filho; não importa a idade!” Apegados a tal chavão, ignoramos que eles se tornaram adultos e possuem suas próprias expectativas. Quando deveríamos considerar-nos felizes por nos presentearem com os netos, “indolores, gratuitos”, tal qual um combustível, gracioso em tempos de gasolina, álcool e diesel caros.

Mantemos expectativas até sobre nossos feitos; e aqui talvez a moeda mais vil que possa se nos apresentar: a do reconhecimento.

Quando o melhor dos amigos, dos trabalhadores, do cônjuge, dos filhos nos decepciona, – desaponta-nos – quando não reconhecem nosso esforço, vem-nos à mente logo a traição e não um trabalho de seleção do Senhor em nosso benefício.

Se nos decepcionam, ou se não satisfazem nossas expectativas é possível que não se constituam, ainda, nosso melhor amigo, trabalhador, parceiro, cônjuge, filho. Ou que nosso “dever tenha deixado a dever!”

Porque há muita disparidade entre o patamar evolucional dos Espíritos, alguns afinarão conosco; outros nem tanto! Afinal somos 7,6 bi de almas diferentes nesta Escola chamada Planeta Terra.

Precisamos, então, de uma fervorosa coragem para entendermos tais desapontamentos aqui estudados como expectativas:

E essa fervorosa compreensão e coragem é o entendimento do livre arbítrio daqueles que nos cercam; mesmo se constituindo eles amigos, trabalhadores, cônjuges, filhos… E mesmo que no cumprimento de nossas obrigações estejamos, apenas, saldando débitos.

Tais criaturas, porque muito próximas a nós, passam-nos ainda despercebidas como “indivíduos individuais.”

* * *

“Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? (Lucas, 11, 11). Também no sentido das expectativas, nosso Pai que está nos Céus estará realizando a nosso favor esse trabalho de seleção.

Se a moeda expectativa nos cega, quem dela não for um escravo que veja!

(Sintonia: Xavier, Francisco Cândido, Fonte Viva, ditado por Emmanuel, Cap. 141, Renova-te sempre, 1ª edição da FEB) – (12 de junho; inverno de 2018).

0010062037R-1920x1280“… Quando o elogio for sincero, beneficiará quem o recebeu, proporcionando-lhe força e ânimo incalculáveis, tanto quanto retornará à fonte emissora favorecendo-a igualmente. O cristão consciente, quando recebe elogios, busca agradecer trabalhando sempre mais.”1

Toda a vez que agradecermos e elogiarmos nosso companheiro, aquele que junto conosco realiza tarefas voluntárias, estaremos cumprindo o dever de gratidão, ao nosso equiparado colaborador, sem a menor intenção de envaidecê-lo; caberá a ele, entretanto, bem administrar os encômios e os votos que lhe foram augurados e sem permitir que essas manifestações causem um efeito nocivo ao seu ego.

Freqüentemente, em detrimento da fraternidade, somos demasiados rígidos conosco, bitolados e até cruéis no intuito de não infringir regras de nossa Casa ou recomendações gerais da Doutrina. Se nos recordarmos de Jesus, quando encarnado, aquele que almoçava com Marta, jantava com o publicando Zaqueu ou repousava na casa de diletos amigos, certamente essa lembrança nos evidenciará que a palavra animadora, o ósculo fraterno, a descontração sadia… Serão imprescindíveis para aliviar as rotinas da faina de nossas lutas.

Criamos padrões em nossas cabeças doentes ante os naturais fantasmas da vaidade, do orgulho e da imodéstia que intimidarão nossos afagos, nossos reconhecimentos e sentimentos de gratidão que deveriam dar um ânimo novo ao colega esforçado e criativo por suas ajudas prestadas.

Se já nos reportamos à fraternidade de nosso Mestre, devemos lembrar que nossos ícones maiores, Kardec e Chico – quem sabe o mesmo espírito em duas encarnações – tiveram, sim, em suas vidas, paralelamente às suas seriedades, momentos de descontração nos quais confraternizavam e energizavam suas baterias, refugiados nos braços de suas amorosas confrarias:

“… Muitas vezes, quando Kardec estava dormindo, Amélie – sua mulher – se levantava e, sem que ele percebesse, colocava-lhe dinheiro no bolso do paletó… Sendo pobre ele era constantemente acusado – veja ‘Revue Spirite’ de 1862 – por um padre que escreveu que ele vivia numa vida principesca e que sua mesa era extremamente farta. ‘Que diria o padre – rebateu Kardec -, se visse minhas refeições mais faustosas, nas quais recebo os amigos? Achá-las-ia bem mais magras que a magra de certos dignitários da Igreja, que provavelmente as repeliriam para a mais austera Quaresma. ’ ” 2      

“Interessante o hábito de ele – Kardec – receber os amigos para comer em sua casa… Chico, semanalmente, fazia o mesmo – e também sem dinheiro! Não fosse o auxílio de amigos para um arroz com feijão, um frango de panela com quiabo e angu.” 3

Naturalmente que a quantidade de posses – materiais – que nosso dileto companheiro possua, não influenciará, de forma nenhuma, na qualidade de suas tarefas na comunidade. Influirá, sim, se, por uma falta de sensibilidade, resolvermos confraternizar em locais – pizzarias, lancherias, restaurantes, sorveterias… – incompatíveis com os seus recursos.

Convém lembrarmos que, dentre as marcas que trazemos de outras vivências, particularmente o orgulho, o egoísmo e a vaidade poderão estar mais evidenciadas. Para almas ainda com esse tipo de dificuldade, é lógico que nossos elogios sempre lhes representarão uma ameaça maior. É como se disséssemos popularmente que ‘fulano já nasceu orgulhoso’ ou ‘beltrano já veio ao mundo um tanto narcisista’.

Escutávamos, outro dia, de um jovem acordeonista e compositor que ‘as melhores obras são aquelas que não passam pelo ego de seus criadores’… Estas poderão se imortalizar; no caso contrário dificilmente terão vida longa.

Parabéns, queridos amigos, não deveria ser aquela palavrinha desgastada e utilizada tão somente em datas natalícias de nossos parceiros. Parabéns é um termo que deveria ser reinventado e reimplantado com doçura nos lábios dos reles mortais trabalhadores de nossas Casas Espíritas.

Muito obrigado é sufocado em nossas gargantas ante, também, a nossa imaginação demente de que somos funcionários públicos ou privados que ali estamos – no Centro Espírita – com salário pago e isso basta. Imputamos ao corre-corre, às regras e às tradições a responsabilidade por não agradecermos, mas, na verdade é nossa insensibilidade a grande vilã.

Tudo em nossas vidas deveria ser pautado pelo equilíbrio… Talvez seja a hora de examinarmos como andam no fiel da balança os nossos reconhecimentos, a nossa gratidão, os nossos agradecimentos: Se estiverem pendendo para o lado da insensibilidade ou se, ao contrário, para o lado do exagero subserviente ou vilania, revê-los e ajustar o ponteiro a uma marca mais harmoniosa.

Vamos preferir que nosso companheiro se incentive ante nosso elogio do que fracasse e desanime ante a nossa insensibilidade. Atendendo a determinadas regras, temos muito escrúpulo em ‘estragar’ nossos aliados com agradecimentos e elogios. Não nos damos de conta, porém, que não temos esse poder; as pessoas se ‘estragam’ ou se ‘consertam’ por si próprias.

Quem sabe se, na frugalidade e simplicidade de uma roda de chimarrão acompanhada de guloseima ou outra e embalados por contos descontraídos, não estreitássemos laços afrouxados por pseudas importâncias tarefeiras em detrimento da fraternidade?!

Quem sabe não estamos precisando de pequenas e fraternas reuniões, na fração de nossos departamentos, por exemplo, e, seguindo os passos do Mestre, de Kardec, de Chico, sem grandes quitutes, mas tão somente com rosquinhas para nós gaúchos, broinhas de polvilho para os paulistas, pãozinho de queijo para os mineiros e lasquinhas de rapadura para os nordestinos… e abrigados em nossas gostosas varandas e com o sagrado tempero da fraternidade não reinventemos expressões cordiais que estejam relegadas a um segundo plano?

Ah! Parabéns e… muito obrigado, em hipótese nenhuma tirará um pedaço de seu executor… Em contrapartida, acrescentará um pedaço de ânimo ao tarefeiro criativo. Parabéns… muito obrigado, longe de galanteio ou fineza fútil, é antídoto ao desacorçoamento; é combustivo para uma máquina humana que possui falhas mas também possui muitos acertos.

Parabéns e… muito obrigado, poderá ser o combustível que esteja faltando ante a insensibilidade que poderemos estar usando como máscara. Orgulho e vaidade são naturais fantasmas do mal. Não acreditamos, entretanto, que elogios e atenções – temperos do bem e da fraternidade – os alimentem!

Muito obrigado, irmãozinhos queridos, pela paciência de acompanhar este nosso trabalho!

Bibliografia:

1. Pg. 189 de Conviver e melhorar, de Francisco do Espírito Santo Neto/Batuíra, Ed. Boa Nova; e

2. e 3. Pg. 157 e 158 de Jesus e o Espiritismo, de Carlos A. Baccelli/Inácio Ferreira, Ed. LEEPP.

Pub ‘O Clarim’ Nov de 2014