Posts Tagged ‘Ser ou ter?’

Sábado, primavera de 2013. Em meio ao frenético vai e vem da pista central da Avenida Duque de Caxias, bairro Fragata, fazíamos, minha velhinha e eu, a caminhada que deveria ser mais amiúde, não fora os encargos da recente instalação.

A primeira constatação é que tal pista, construída inicialmente para ser um corredor de coletivos, continua à deriva do progresso, com imensas rachaduras, desníveis, mal sinalizada, e com inadequações em todos os seus retornos, como a própria avenida em seu todo.

Mas não é propriamente ao estado da pista que desejo me reportar, mas aos personagens que naquele momento a freqüentavam:

Muito próximo aos trailers de alimentação, as moças da limpeza realizavam suas tarefas, – árduas por sinal – de retirar todo o lixo que, sobretudo às sextas, sábados e domingos à noite é jogado inescrupulosamente naquela área. Também, aqui, e o deixo claro, não havia insatisfação por parte das profissionais; muito pelo contrário, exibindo todos e os possíveis looks próprios de suas feminilidades, cumpriam de forma risonha suas tarefas com o maior capricho possível.

Após as cumprimentarmos e elogiarmos seus trabalhos, minha amada e eu comentávamos de como tal área deveria estar imunda nas primeiras horas das segundas feiras, ao que concordaram, referindo-se ao caos e ressaca no início da semana.

Nesse mesmo instante e olhando para os lados da avenida, distraí-me ao pensar na diversidade de seus moradores e de como a felicidade está desvinculada do possuir ou não possuir. Questionamentos me ocorreram, tais como: Será que na mansão próxima haveria felicidade e que tipo de felicidade seria? Ou nas casas mais humildes, qual seria o significado dela? Entre o ter e o ser, quanto distanciamento do conceito felicidade!

Desatento, voltei a encarar as ‘meninas’ da limpeza e seus rostos humildes, porém francos pareciam me declarar que ‘eram’ muito mais do que ‘tinham’: Eram responsáveis, eram caprichosas, eram habilidosas, eram verdadeiras, eram ou… pareciam ser felizes!…

* * *

“A Nigéria é líder entre os países com maior porcentagem de pessoas que se consideram felizes. (…) Situada na África, continente considerado paupérrimo, [conclui-se que] nem sempre a condição econômica é motivo de felicidade.” (World Values Survey, investigadora de valores socioculturais e políticos a cada cinco anos).

Conclui a mesma pesquisa que Rússia, Romênia e Armênia são os países menos felizes, donde é forçoso se coloque em dúvida que a origem e influência marxista não tenham completado o quesito felicidade dos povos.

Mas qual, então a ‘receita’ da felicidade? É possível que seja ‘a’ dada pelas moças da limpeza da ‘minha’ Avenida? Sim! É possível! A paz da consciência do dever cumprido, a satisfação que sentem de ver seu trabalho usufruído por ordinários e anônimos usuários e caminhantes como eu, a humildade de suas tarefas, o sentirem-se pequeno-grandes obreiras… as fazem felizes e disso eu não tenho dúvidas.

É possível que se o Mestre por ali passasse, num flash back e ao verificar suas fainas, as incluísse em seu ‘time’, – o das pequenas criaturas – como o fez com Zaqueu, com o Centurião, com Madalena, com a Viúva do óbolo, com o Publicano em rogativa no templo, com a mulher do poço e com tantos outros pequeninos perdidos no tempo e nas vielas da poeirenta Palestina e capital Jerusalém de Seu tempo.

Pensa nisso, minha querida e meu querido!

(Sintonia: Cap. Países mais felizes, pg. 47 de O Evangelho é um santo remédio, de Joseval Carneiro, Editora EME) – (Primavera de 2013).