Posts Tagged ‘Toma lá da cá’

N16

“A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos.

A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.

A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos… Tudo bem!

O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum… é amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos e acreditar mais ou menos.

Senão, a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos. ”

* * *

As expressões acima não fazem parte da única vez que nosso ilustre Chico Xavier nos fala em ‘metades’. No capítulo 29 do Livro da esperança1, sob o ditame de Emmanuel, quando aborda o tema meio-bem, o filho de Pedro Leopoldo compara à pessoas mais ou menos, as que realizam a prática do meio-bem.

Chico abre o capítulo com a exortação de Fénelon “fazei o sublime esforço que vos peço: ‘Amai-vos’ e vereis a Terra em breve transformada em paraíso, onde as almas dos justos virão repousar”2, mas não esquece a advertência de Jesus “E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontrem.”3

Encontrar a vida da qual aqui nos fala Jesus através do antigo coletor de impostos e narrador Mateus seria, segundo nossos conselheiros Emmanuel e Chico, não admitir metades ou coisas mais ou menos. Chico, como nós, conviveu e acostumou-se a ver em nosso País coisas mais ou menos ou meias coisas: Meias verdades, meias administrações, meias beneficências, meios carinhos, meios socorros e cooperações, caridades interesseiras, meias abnegações… Enfim, vários meios-bens!

Não temos a menor dificuldade em discernir entre o bem e o mal, pois nossa consciência funciona como a bússola que nos anunciará qual desses caminhos a escolher. A grande dificuldade, entretanto, que se nos apresentará será o bem ‘mascarado’, ou o bem com trejeitos de mal, o meio-bem:

O mal é o grande vilão que não nos levará a lugar nenhum, tão pouco à vida à qual se refere Mateus. O mal é a negação do “amai-vos”, a estrada e porta largas, justamente porque o mal é extremamente confortável de praticar. Ninguém faz muito esforço para praticar o mal!

O bem, ao contrário do mal, por possuir um caminho apertado e uma porta estreita, nos exige o supremo esforço do “amai-vos”. Muito mais difícil de praticar do que o mal, o bem nos oferece extremado regozijo e somente ele terá a capacidade de nos introduzir no caminho que leva à vida. O bem não reclama bem, é a abnegação total e somente ele nos fará “ver a Terra em breve transformada em paraíso, onde as almas dos justos virão repousar”.2Falsidade

Extremamente arriscado, entretanto, é o meio-bem: Este é a ação na qual despendemos uma energia ineficaz e quenão nos levará a lugar algum, tão pouco à vida:

  • Não haverá nenhuma remuneração para o trabalhador que colabora na administração ou se engaja em tarefas beneficentes da casa espírita. Muito pelo contrário, em nos considerando os maiores beneficiados por tais labores, a colheita ficará a cargo do Administrador Maior e da Beneficente Providência. Se algum regalo desejarmos obter em troca será unicamente a fraternidade dos que conosco ombreiam. Realizarmos tais tarefas, desejando tributos de gratidão ou privilégios é realizarmos tão somente o meio-bem;
  • Sentirmo-nos necessários cooperadores sempre que adentrarmos em miseráveis casebres onde o saneamento e a higiene lhes passam ao largo e desejar de socorridos esquálidos, maltrapilhos e mal cheirosos concessões constrangedoras, não é alimentar ou assistir a necessitados, mas é a atitude do meio-bem, impondo-lhes [pesadas] cargas nos ombros;
  • Acolhermos crianças infelizes, elogiarmos companheiros, e protegermos amigos, para de todos obtermos a servidão, o retorno de elogios ou a mais vil escravidão, será o mais ignóbil meio-bem e pelo qual nosso Divino Tutor não terá a menor consideração; e
  • Repartirmos nossas ‘sobras’, no intuito de realizar caridade e com isso recebermos a consideração e veneração dos humildes, é realizarmos o legítimo meio-bem, completamente na contramão do óbolo da viúva que, incondicionalmente depositou na urna a única dracma que possuía;

Todas as ações de meio-bem que realizarmos nunca chegará a nos resgatar do mal porque todas elas estarão atendendo unicamente ao nosso orgulho, egoísmo e vaidade.

A prática do meio-bem é uma das mais estranhas atitudes de pessoas que, ao enaltecerem a eficácia da abnegação praticam o mais desprezível ‘toma lá da cá!’

* * *

A boa obra é fonte cristalina… O interesse, a cobiça, o desejo de regalos, de agradecimentos e elogios – ou o meio-bem – é o barro que sempre enlameará e tisnará a límpida água de beber.

Bibliografia;

1. Emmanuel/Francisco Cândido Xavier, cap. Meio-bem do Livro da esperança, Ed. CEC;

2. Guillon Ribeiro, O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 9 do Cap. XI; e

3. Mateus, 7-14.

Publico este tema na primeira pessoa do plural, por fazer parte de exposição doutrinária – (Verão de 2013).

“Quando derdes um jantar, não convideis nem vossos amigos, nem vossos irmãos, nem vossos parentes, nem vossos vizinhos que forem ricos, de modo que eles vos convidem em seguida, a seu turno, e que, assim, retribuam o que haviam recebido de vós…”

Longe de me admirar com esta expressão do Mestre, diria que Ele sabia ‘com que bois estava lavrando’; não que a humanidade de hoje se sinta melhor que os Seus compatriotas daquela época… Muito pelo contrário, toda a sua linguagem explícita ou alegórica continua sendo necessária hoje aos ‘convivas’ deste meu planeta.

* * *

Certamente se Jesus me convidasse hoje para um jantar – eu na qualidade de coxo, estropiado, pobre ou cego – talvez lhe desejasse dizer, se tivesse um pouco mais de fé, como o centurião: “Senhor, eu sou digno de adentrar ao teu jantar, mas dizei uma só palavra e serei saciado”…

Mas o que esse Anfitrião desejava expressar – e ainda o deseja hoje – é exortar a humanidade do cuidado que deva tomar com o ‘toma lá da cá’, ou ‘uma mão lava a outra’ ou, ainda, da questão de querer levar vantagens e proveito. Se pensar e agir  dessa forma, eu:

  • Curtirei, comentarei e compartilharei tuas postagens, só se retribuíres às minhas;
  • Elogiarei e agradecerei o colega expositor, desde que ele ‘encha a minha bola’ logo após a minha, por medíocre que seja;
  • Só se me dedicares exclusividade serei teu amigo; ou teus amigos não poderão ser amigos comuns;
  • Desde que ‘feches’ com minhas idéias, por absurdas que sejam, desejar-te-ei em meu círculo; logo, se não aceitares minhas cobranças, serás descartado;
  • Só se me convidares para o teu ‘filé’, convidar-te-ei para meu almoço, mesmo que seja um prato mediano; e
  • Somente se corresponderes às minhas expectativas, abdicando das tuas próprias, te manterei próximo a mim.

E assim vou impondo, comercializando, chantageando… Uma espécie de mercador de conveniências. Abafarei todos os teus anseios com minhas barganhas e com a vilania de minha moeda interesseira…

* * *

“Talvez por querermos levar vantagens, tenhamos atraído amizades vazias, distorcidas, verdadeiros parasitas de nossas energias” (Hammed).

A pessoa desinteressada não compra pessoas e nem se vende com a moeda da conveniência; ama incondicionalmente e seu amor jamais estará atrelado ao só se… desde que…

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Conveniência, pag. 161 de Renovando atitudes, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Nova Era) – (Primavera quente de 2012).