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Escravo

Conta-me a história de meu País – literatura, artes, imagens, obras de ficção… – que a escravidão negra no Brasil começa no período colonial e estende-se até o final do império. Os negros que muitas vezes sob o efeito da chibata eram forçados a trabalhos na indústria açucareira, mineração e alguns trabalhos domésticos, ao se recolherem à senzala, à noite, cantavam e dançavam ao som de lamentosas canções, demonstrando dessa forma que seus corpos eram escravos, mas não as suas almas. Tais lazeres contrariavam seus senhores por não vê-los subjugados por inteiro. Ao promoverem suas fugas das fazendas, esses indivíduos requeriam mais a liberdade física, já que de espírito estavam libertos.

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Ao ser criado o meu espírito simples e ignorante, deu-me de inhapa o Criador a minha liberdade. Dessa forma a liberdade sempre fez parte da organizada Lei Divina, tornando-me uma Sua criatura naturalmente não subjugável.

  À medida que mentes saíram de sua natural ignorância e atingiram determinado grau de imoral esperteza – os espertalhões – começaram a subjugar semelhantes: Atendendo aos apelos do orgulho, vaidade, egoísmo e ganância, esses indivíduos involuíam, ou saíam do estado de ignorância e passavam a ignorar as Naturais Leis.

Hammed me diz que há duas espécies de jugo, o que me impõem e aquele que eu me imponho, ou me torno escravo de alguém ou de algo.

Ser escravo de alguém pode significar, literalmente, aquela escravidão que sofreram meus irmãos que vieram da África. Mas também poderá significar que por falta de opinião, por desejo de promoção ou por algum tipo de idolatria eu me submeta à opinião de terceiros. Enquanto que os escravos negros tinham seus corpos escravizados, aqui eu terei minha mente escravizada.

Ser escravo de algo significa submeter-me ao jugo de uma série de paixões, mazelas, vícios morais… Ou algo a que idolatro, segundo o próprio Hammed, por falta de uma opção melhor. No fundo, no fundo, quando me torno escravo de algo, também estarei me tornando escravo de alguém: ‘Toma essa cervejinha que ela te fará alegre e corajoso e além do mais ficarás mais homem!’, dir-me-á o encarnado rodeado de desencarnados afins que o estarão secundando. Subjugado a algo pressupõe, pois, ‘subordinação’ a encarnados e desencarnados.liberdade

Sob a vontade de Deus e ao desejar me talhar à sua imagem, me torno o único governador de mim mesmo.

Se o dogma, herança de um passado assombroso, cerceador de liberdade de mentes, ficou para trás, preciso ter cuidados com o dogmatismo que poderá me causar a mesma subjugação a algo ou a alguém e que, fugindo a uma naturalidade, poderá me causar embaraços semelhantes aos causados aos ditos ‘hereges’ de outrora.

Fazer uma ‘cavalo de batalha’ em torno de pequenas regrinhas do dia-a-dia, além de ferir a fraternidade de uma sociedade, poderá resultar na intolerância com cheiro – ou fetidez? – a dogmatismo.

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Ao me ajustar à Vontade de Deus ou à Lei de Deus ou Naturais, vivenciarei o mais absoluto senso de realidade, já que o meu Grande Fiador – de sustentação, resguardo e inspiração – me proporcionará a desindexação do algo ou alguém, o que resulta em liberdade e alegria amplas.

(Sintonia e expressões em itálico são do cap. Alegria, pag. 21 de Os prazeres da alma, de Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto, Ed. Boa Nova) – (Verão de 2013).