Crônicas doutrinárias

Cor: Socorro; RG: Compaixão

“‘Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa. ’ Ele desceu a toda a pressa e recebeu-o alegremente. Vendo isto, todos murmuravam e diziam: ‘Ele vai hospedar-se em casa de um pecador… ’”1

No episódio de Zaqueu – e aqui o evangelho não nos fala através de alegorias, mas de um fato histórico -, nosso Divino Socialista nos dá uma demonstração inequívoca de sua isenção.

O publicano em questão instalara-se em cima de um sicômoro – visto que era de baixa estatura – para melhor socorrer-se e render-se ao Mestre que, passando por Jericó dirigir-se-ia para Jerusalém. Ora, o que pegou é que publicano era persona não grata na Judéia, por serem consideradas pessoas de má vida além de cobradores corruptos de impostos; e nosso personagem era nada mais, nada menos que o chefe deles.

Mas por que Jesus se entreveraria, inúmeras vezes, a essas pessoas consideradas à margem? Na verdade o Mestre das Multidões sentia-se bem com quaisquer tipos de pessoas, até porque público era a sua ferramenta; fazia parte de seu ofício. Idéias pré-concebidas não faziam parte de seu discurso; tão pouco havia atitudes preconceituosas em seu proceder. Como já dissera em outra ocasião, Ele não viera para os sãos; estes não precisariam de sua assistência médica; os doentes, sim.

Aqui a hipocrisia local falou mais alto – apesar de ter sussurrado – e a história do pequeno Zaqueu passou a confundir-se com preconceito, intolerância, racismo.

Como somos sábios em se tratando de indiciar! Em julgamentos e opiniões sobre religião, cor, classe social, somos rápidos, cruéis, contundentes, implacáveis e ilimitadamente radicais. Esquecemo-nos que o Mestre das Misericórdias vivia suave e indulgentemente infiltrado entre cobradores de impostos – que era o caso de Zaqueu -, prostitutas e leprosos… O povo, do mais diverso matiz era seu palco, como já salientamos.

Não estamos, aqui, fazendo uma apologia à promiscuidade e sim tentando nos revestir da mesma compaixão do Divino Amigo e nos inserir em seu Programa Social que vem dando certo há dois mil anos. De forma nenhuma nos sintamos confusos nessa luta, mas consciente, disponível e humildemente integrados a ela.

Hammed nos orienta que “Jesus de Nazaré combateu sistematicamente os ‘espinhos da opressão’ na pessoa daqueles que observavam com rigor, rituais e determinações das leis, em detrimento da pureza interior. Dessa forma, Ele desqualificou todo espírito [todo o sentido] de casta entre as criaturas de sua época.”2

Quantos eruditos havia no secretariado de Jesus? Um ou outro! O Mestre não estava preocupado em reunir auxiliares pertencentes a castas, mas homens castificados a partir de suas boas vontades.

A própria mediunidade, sexto sentido concedido a todos nós, de boas ou más vidas, abomina predileções, racismo e não está circunscrita aos mais agraciados uma vez que – este dom natural – está à disposição dos mais diversos credos, de todas as nacionalidades, de todos os padrões sociais e das mentes mais intelectivas às mais tacanhas.

O Socorro que vem dos Céus, não chega particularizado para brancos, negros ou amarelos, nem para arianos ou judeus, tampouco para as diversas opções de sexos, muito menos para ortodoxos ou céticos; esse auxílio chega indiscriminadamente e a mancheias. Aliás, essa assertiva ficou explícita na Parábola do Bom Samaritano onde a assistência ao infeliz possuía, tão somente, a cor do socorro e a identidade do socorrista possuía, exclusivamente, o RG da compaixão.

Pecado, ou a má vida – porque transitórios – poderão não estabelecer uma identidade; o amor, a tolerância, o atenuante, o consolo, o perdão, a desculpa – porque incontestáveis -… Poderão!

 (Bibliografia: 1. Lucas, 19, 5-7; 2. Hammed/Francisco do Espírito Santo Neto – Renovando Atitudes, Pg. 67).

(Final do verão de 2010/11) – (Pub. ‘O Clarim’, Set 2011).

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